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domingo, 22 de setembro de 2013

MODERNIDADE LÍQUIDA de Zygmunt Bauman. Resumo, por Marcelo Gesta, RJ,maio de 2008


MODERNIDADE LÍQUIDA
de Zygmunt Bauman 
Resumo, por Marcelo Gesta RJ,maio de 2008




Introdução:


    De forma bastante original Zygmunt Bauman usa a metáfora da “fluidez” e do “líquido” para descrever a sua idéia sobre a performance do atual momento da modernidade.


    Ao contrário do “sólido”, do “pesado”, com sua característica firme, imóvel, não maleável, o líquido não se priva de alterações, constantes se necessário, a sua razão de ser encontra-se justamente em sua maleabilidade e adaptação aos obstáculos que tem diante de si. O líquido é capaz de tomar a forma da fôrma que o contém, mas logo saindo dali, daquele espaço, daquele momento, “larga” aquela forma que o detêm. A sua forma de ser está em se deixar de forma ter, para que mais á frente venha outra forma ter e não ser, mas não ser.


    Ao contrário do líquido temos o “sólido”, o pesado, aquele que tem em sua dureza e rigidez a sua meta de ser. O sólido já se concebe pronto, não evolui, e deixar de ser o que é é transformar-se em outra coisa. Talvez por isso tenhamos a célebre frase sobre “derreter os sólidos”, cunhada pelos autores do Manifesto Comunista.


    Todo sedimento ou resíduo do passado (o sólido quando se quebra transforma-se em vários pedaços que continuam sendo sólidos independente de sua dimensão) isto é, a “tradição”, não permite que haja “fluência” e desenvolvimento livre e dinâmico. Com o tempo a “resistenciabilidade” do sólido acaba deixando-o obsoleto.


    Podendo se tornar obsoleto o sólido também pode ficar velho, defeituoso, contraproducente e trazer instabilidade á própria solidez da pesada estrutura contida em sua volta.


    Quando este mesmo sólido não mostra mais confiabilidade, surge daí a necessidade de buscarem-se sólidos ainda mais “pesados”, não degradáveis, independentemente da degradabilidade do ambiente em volta. O sólido perfeito seria aquele absolutamente e permanentemente administrável. Visto que este não existe, surge então a necessidade, não de fragmentar-se, mas de derreter-se (para moldar em outro sólido), de profanar-se, qualquer sólido que não gerasse sólidos ainda melhores. É a idéia do sólido pelo e para o sólido como um fim em si mesmo, o “nexo do dinheiro”.


    O derretimento dos sólidos obsoletos leva á uma evolução que se mostrou mais clara em termos econômicos. Porém, a nova ordem deveria ser mais “sólida” que as outras substituídas, para resistir e ser imune á tudo o que não fosse econômico. A nova ordem econômica (novo sólido) é implacável, contínua e reproduzível por si mesma.


    A tentativa de refletir-se ou renovar a natureza da nova ordem é considerada fútil e inadequada, pois a rigidez da ordem ´´e o artefato e o sedimento da liberdade dos agentus humanus.


    A tarefa de construir-se um “sólido novo” (nova ordem) em detrimento do obsoleto não é mais “estrategizada” e objetivada da mesma forma. O “derretimento dos sólidos”, traço permanente da modernidade, adquiriu um novo sentido, os sólidos que estão sendo derretidos e formados neste momento, o momento da modernidade fluída, é a realização e entrelaçamento do individual “com o” ou “em o” coletivo.


    A tarefa dos indivíduos livres era usar sua nova liberdade para encontrar o ninho apropriado e ali se acomodar e adaptar: seguindo fielmente as regras e modos de conduta identificados como corretos e apropriados para aquele lugar.


    Apesar dos padrões, códigos e regras antigos estarem cada vez mais em falta, isto não quer dizer que nossos contemporâneos tenham liberdade e autonomia completa, apenas estão saindo da era dos “grupos de referência” predeterminados e migrando para uma de “comparação universal”.


    A modernidade fluída causou uma profunda mudança na condição humana, apesar de termos ultrapassados os velhos sólidos, a necessidade latente de fluídos nos leva e nos faz repensar e reviver antigos tabus que outrora pensávamos estarem mortos, mas agora surgem como mortos vivos.


    Nesta nova modernidade o espaço é o sólido, imóvel, pesado, ao passo que o tempo é o dinâmico, o líquido, o móvel e moldável, assim a velocidade e o aperfeiçoamento do movimento passam á ser a ferramenta de dominação.


    Na modernidade sólida o poder se via, se formava e ebulia de um local determinado por dimensões fixas e específicas, agora as principais técnicas do poder são a fuga, a astúcia, o desvio, a evitação e a rejeição efetiva de qualquer confinamento territorial com a responsabilidade pelas conseqüências e custos.


    Se hoje há uma guerra, seu objetivo não é ocupar o território possuído, controlado e administrado pelo inimigo, mas, sim, e apenas, destruir as muralhas que impedem o fluxo dos novos e fluídos poderes globais, a guerra hoje é “uma promoção do livre comércio por outros meios”.


    Fixar-se ao solo não é tão importante se o solo pode ser alcançado e abandonado à vontade, imediatamente ou em pouquíssimo tempo. Há uma velocidade atordoante da circulação, da reciclagem, do envelhecimento, do entulho e da substituição que traz lucro hoje – a durabilidade e confiabilidade do produto.


    Para que o poder tenha liberdade de fluir, o mundo deve esta livre de cercas, barreiras, fronteiras fortificadas e barricadas.


  1. EMANCIPAÇÃO


    No final da segunda Guerra Mundial Herbert Marcuse traz-nos a idéia de Emancipação: “Devemos nos emancipar, libertar-nos da sociedade”. A idéia que não era um problema para Marcuse, trazia, sim, um problema em si, ou seja, não havia “base de massas” para esta libertação-emancipação. Pois dentre poucas pessoas que desejavam serem libertas, poucas estavam dispostas a agir para isso, pois não sabiam qual o resultado novo que desta ação trar-lhes-ia no futuro.


    Libertar-se é livrar-se de algum tipo de grilhão, é começar a sentir-se livre para se mover e agir. “Sentir-se livre” significa não experimentar dificuldade, obstáculo, resistência ou qualquer outro impedimento aos movimentos pretendidos ou concebíveis.


    Schopenhauer, por sua vez, dizia que a “realidade” é criada pelo ato de querer, é a teimosa indiferença do mundo em relação á minha intenção, a relutância do mundo em se submeter á minha vontade, que resulta na percepção do mundo “real”, constrangedor, limitante e desobediente. Sentir-se livre das limitações, livre para agir conforme os desejos significa atingir o equilíbrio entre os desejos, a imaginação e a capacidade de agir. Sentimo-nos livres na medida em que a imaginação não vai mais longe que nossos desejos e que nem uma nem os outros ultrapassam nossa capacidade de agir.


    A liberdade é ilusória talvez, pois “quando se sente” ou “se fosse sentida” a liberdade não seria de fato liberdade, pois as pessoas poderiam estar satisfeitas com algo que realmente não seja satisfatório. Poderiam estar vivendo na escravidão, mas sentindo-se livres, sem necessidade de libertar-se e tornarem-se verdadeiramente livres.


    Embora alguns ainda sim se sintam “livres subjetivamente”, todos devem ser persuadidos a buscarem a “liberdade objetiva” independente das dificuldades que o exercício desta liberdade possa acarretar.


As benções mistas da liberdade


    A maioria das pessoas teme a liberdade objetiva, devido o peso individual das responsabilidades advindas dela. As pessoas são levadas a “ter” ao invés de “ser” (eu sinto que tenho liberdade, mas não sou livre) e a “agir” ao invés de “ser” (eu ajo como livre, mas não sou livre); são levadas á “cultura de massas” (todos “são assim”, pois ninguém pode ser de outra forma) que planta nelas uma sede de supérfluos fúteis e efêmeros (“diversão”), em vez de necessidade pela luz (“verdade”).


    A liberdade dos libertários não é uma garantia para a liberdade, pois os que assim tentam ser livres são deixados sozinhos com seus próprios recursos para prover suas próprias necessidades.


    Émile Durkheim, por sua vez, desenvolve uma visão também hobbesiana, através de uma filosofia social compreensiva, em que a “norma”, medida pela média ou pelo mais comum, e apoiada em duras sanções punitivas, é que liberta o homem da escravidão que não se esconde em pressões externas, mas dentro, na natureza pré-social ou associal do homem. A coerção social é, nessa filosofia, a força emancipadora e a única esperança de liberdade que um ser humano pode aspirar.


     A condição para a libertação está em o indivíduo submeter-se a sociedade, pois quando se coloca sob a sociedade, e até depende dela, encontra aí uma, sem contradição uma dependência libertadora. Não há contradição entre libertação e dependência, pois a liberdade não pode ser ganha contra a sociedade ou sem normas.


    A anomia (ausência de leis) é o pior que pode acontecer ás pessoas em sua luta para dar conta dos afazeres da vida. As “normas” tanto capacitam quanto incapacitam, a anomia anuncia a pura e simples incapacitação.


“A rotina pode apequenar, mas também pode proteger’, Imaginar uma vida de impulsos momentâneos, e ações de curto prazo, destituída de rotinas sustentáveis, uma vida sem hábitos, é imaginar, de fato, uma existência sem sentido”. Richard Sennett


    Adam Smith, porém, achava que os efeitos do trabalho rotineiro eram degradantes e estupidificantes, enquanto Dennis Diderot achava o contrário. Toda certeza alcançada de desmantelas com o cotidiano cheio de rotina e vazio de reflexão, ainda sim será manufaturada e fabricada, trazendo em si a vulnerabilidade das decisões humanas.


    Ao entrar-se no mundo da modernidade fluida, nota-se e afirma-se o fim do ser humano como ser social, dependente e orientado por normas sociais que dão seu lugar nesta mesma sociedade, agora sua lógica e razão de ser são encontrada dentro do próprio indivíduo e não fora dele.


As casualidades e a sorte cambiantes da crítica


    Nossa sociedade de “indivíduos livres” fez da crítica da realidade, da insatisfação com “o que aí está” e da expressão dessa insatisfação uma parte inevitável e obrigatória dos afazeres da vida de cada um de seus membros. Apesar de sermos predispostos á crítica, nossa crítica, ainda sim, é incapaz de afetar a agenda estabelecida para nossas escolhas na “política-vida”, pois há uma liberdade sem precedentes e uma impotência sem precedentes.


    A era de modernidade líquida adota uma hospitalidade á crítica, em que se a recebe com toda a sua plenitude e dinâmica, mas não se assimila esta mesma crítica, que por sua vez, calará quando deixar o “domicílio de seu objeto criticado”, sem maiores transtornos ou mudanças (falem mal de mim, mas falem de mim). A crítica ao estilo do produtor foi substituída pela crítica ao estilo do consumidor.


    A obsoleta sociedade moderna, sobrecarregada de inclinações totalitárias, intrínseca e permanentemente, que testava os limites da maleabilidade humana e que condenava os não maleáveis e não submissos, a obsoleta sociedade de modernidade sólida, pesada de mentalidade fordista, não desperta mais o estímulo ou interesse dos atuais críticos contemporâneos, pois as negativas “profecias orwelleanas” ao nos assombram mais.


    Quando os antigos medos da modernidade sólida foram afastados, muitos anunciaram o fim da modernidade, propaganda esta precipitada, trouxe com ela o surgimento de novos medos, e, assim, a vocação intelectual á crítica se mostra mais uma vez indispensável.


    A sociedade que entra no século XXI não é menos moderna que a do século XX; o máximo que se pode dizer é que ela é moderna de um modo diferente. O que faz desta modernidade atual ser semelhante à passada é a forma em que ambas se distinguem de outras formas de convívio humano: a compulsiva e obsessiva, contínua, irrefreável e sempre incompleta modernização; a opressiva e inerradicável, insaciável sede de destruição criativa (ou de criatividade destrutiva se for o caso: de “limpar o lugar” em nome de um “novo e aperfeiçoado” projeto; de “desmantelar”, “cortar”, “desfazer”, “reunir” ou reduzir”, tudo isso em nome da maior capacidade de fazer o mesmo no futuro – em nome da produtividade ou da competitividade).


    A consumação de nossa satisfação é sempre vista no futuro, daí nossa busca ao aperfeiçoamento constante e apressado, e, assim, nossos objetivos perdem sua significância no momento em que são realizados. Assim, moderno tem dois significados hoje: estar sempre à frente de si mesmo, e ter uma identidade que só pode existir como projeto não-realizado.


    Duas características apresentam nossa forma de modernidade como sendo nova e diferente:


-A primeira é o colapso gradual e o rápido declineo da antiga ilusão moderna: da crença de que há um fim, uma conclusão, um cumprimento, um realizar no futuro; da crença de que conseguiremos, de que faremos, de que alcançaremos o bem, o bom, a solução e a satisfação.     


-A segunda mudança, são a desregulamentação e a privatização das tarefas e deveres modernizantes. O que antes era considerado uma tarefa “da e para” a raça humana (a humanidade) hoje é visto como atribuição e responsabilidade dos indivíduos e seus recursos. Ainda que a idéia de aperfeiçoamento pela ação legislativa da sociedade como um todo não tenha sido abandonada, a ênfase da responsabilidade é transferia para a auto-afirmação do indivíduo.


    O discurso ético-político sobre a “sociedade justa” voltou-se para o dos “direitos humanos”, isto é, voltamos ao discurso sobre o direito dos indivíduos serem, permanecerem e buscarem sua individualidade, diferença, escolha a modelos próprios de felicidade e modo de vida adequado.


    Ao contrário da modernidade original que era pesada no alto, a modernidade de hoje é leve no alto e pesada em baixo, onde á base ficou a responsabilidade da modernização contínua. A nova modernidade leve, não assimila mais a idéia de um grande líder ou sistema político que venha se responsabilizar e solucionar os problemas coletivos e individuais da sociedade. Agora, as responsabilidades e soluções são vistas dentro do indivíduo que deve assumir a condição de sua própria vida, no máximo inspirando-se no sucesso de outros indivíduos, mas sem olhá-los sob uma perspectiva paternal.


O indivíduo em combate com o cidadão


    A apresentação dos membros como indivíduos é a marca registrada da sociedade moderna, que caminha incessantemente em direção á “individualização” e reformulação constante. Hoje o objetivo da “individualização” é transformar a “identidade” humana de um “dado” em uma “tarefa”, a busca constante da autonomia. É preciso além do mais, tornar-se o que já se é, pois o fato de se ter nascido com uma identidade não significa que você será aquilo que você nasceu “sendo” ou “para ser”.


    A pessoa com menos recurso e, portanto, com menos escolha tinha que compensar sua fraqueza individual pela “força do número” – cerrando fileiras e partindo para a ação coletiva. Assim, o cidadão era aquele que se moldava e acomodavaao grupo , á classe, ao modelo de conduta, ele tinha de imitar, seguir o padrão da maioria, deveria “aculturar-se”, pois pertencer á um grupo ou classe era a grande realização. Porém, as privações se somavam e, somadas umas as outras, se congelavam em interesses comuns, e eram vistas como tratáveis apenas com um remédio coletivo e, assim, o coletivismo foi a primeira estratégia para aqueles limitados em seus recursos individuais e claramente inadequados.


    Classe e gênero projetavam-se pesadamente sobre a gama de escolhas do indivíduo, a tarefa reservada á auto-afirmação, da maioria dos indivíduos, era adaptar-se ao nicho alocado, comportando-se como os demais ocupantes.


    Ao contrário da antiga, a nova modernidade não fornece “lugares” para a “reacomodação”, não é oferecido conforto, muito pelo contrário, a nova modernidade é constantemente fluente e mutante, ela não promete nem a realização, nem o descanso, nem a satisfação de “chegar”, de alcançar o destino final. Não existe o destino final, pois quando ainda se está no meio do caminho, este é o momento em que se torna obsoleto.


    Ainda assim, tanto no estágio pesado e sólido quanto no estágio leve e fluido da modernidade, a individualização não é uma escolha, mas, sim, uma fatalidade, pois riscos e contradições continuam a ser socialmente produzidos; são apenas o dever e a necessidade de enfrentá-los que estão sendo individualizados.


    No temperado caldo da liberdade preparado no caldeirão da individualização, há um ar de impotência; essa impotência ainda é sentida como mais odiosa, frustrante e perturbadora em vista do aumento de poder que se esperava que a liberdade o trouxesse, e não o trouxe.


    Quem sabe que, caso os poderes individuais, tão frágeis e impotentes isoladamente, fossem condensados em posições e ações coletivas, poderíamos realizar em conjunto o que ninguém poderia realizar sozinho?


    As problemáticas individuais não podem nem conseguem se alinhar em uma ação conjunta, pois diante da individualização não há, objetivamente, causa comum, só há insatisfação em todos. Assim, o “individuo” passa a ser o maior inimigo do cidadão, uma vez que o “cidadão” busca sua satisfação no “bem comum”, gerado através do “poder público”, que por sua vez, busca a “causa comum”.


    O individuo, por sua vez, foca os “direitos humanos”, a possibilidade de seguir seu próprio caminho, a seu jeito. O individuo quer que o poder público diminua, mas que controle a sociedade á sua volta, sem alterar sua individualidade e, em suma, essa individualização é a lenta desintegração da cidadania, uma vez que o público é colonizado pelo privado.


O compromisso da teoria crítica na sociedade dos indivíduos


    O impulso modernizante significa a crítica compulsiva da realidade, e a privatização do impulso significa a compulsiva auto-crítica. Todas as falhas devem ser encontradas em si mesmo. Assim, nosso tempo torna-se propício aos “bodes expiatórios”, uma vez que os fracassos devem ser todos assumidos, e isso não é nada fácil; logo, mais cômodo do que jogar a culpa sobre o totalmente outro, ou seja, o estrangeiro, o político incapaz, o criminoso ameaçador etc.


    Há um grande abismo entre a condição de individuo de jure e suas chances de se tornar indivíduos de facto, isto é, de ganhar controle sobre seus destinos e tomar as decisões que desejava. Uma vez que este abismo não pode ser transposto por esforços individuais, transfere-se, então, atarefa para o poder público ou para a política.


    Porém, não é poder público que coloniza o privado, mas claramente, mais uma vez, o privado colonizando o público buscando sua individualização. O “espaço públio” está cada vez mais vazio de questões públicas.


    Uma vez que o indivíduo de jure não pode se tornar um indivíduo de fato sem tornar-se cidadão, ele precisa fazer parte de uma sociedade, onde possa compartilhar suas necessidades com seus membros. A sociedade por sua vez, mantém uma relação ambígua com a autonomia individual e, assim, o individuo mais uma vez é visto por ela como um membro da sociedade ou um cidadão, e este pretende emancipar-se á individuo.


    Esta é hoje a grande missão da teoria crítica, ou seja, recombinar novamente a individualização formal e a política, repovoar a “ágora pública”; reconectar as duas faces do abismo entre indivíduos e cidadãos, reaprendendo com o passado e aprendendo com o presente e, assim, realizando a emancipação humana.


A teoria crítica revisada


    “A necessidade de pensar é o que nos faz pensar”, diz Adorno. Quanto menos claro for um pensamento, tanto mais próximo fica dos padrões da humanidade. Quanto menos for avaliado e justificado, tanto maior será seu valor humanizante. Só existe quem pensa, a existência está ligada ao pensamento. O pensamento só precisa de si para perpetuar-se, assim como a ingenuidade só precisa de si para perpetuar-se.


    O ingênuo torna sua falta de liberdade e seu “isolamento inviolável” (sua falta de visão) em um caminho fácil. A inocência de sua ingenuidade faz com que as intempéries da vida pareçam familiares.


    O exílio é para o pensador o que o lar é para o ingênuo; é no exílio que o distanciamento, modo de vida habitual da pessoa que pensa, adquire valor de sobrevivência, ou seja, sem praticidade nada sobrevive. Porém, se os pensamentos são guardados intactos, sem qualquer influência externa, e se depois da influência externa ele não é repassado á frente, ele torna-se obsoleto tanto quanto antes. O pensamento renovado ou completado com influência externa á ele perturba a tranqüilidade da rotina diária daqueles que continuam presos ás suas tradições. Assim, o primeiro impulso dos “tradicionais” é combater e rejeitar os fornecedores de “novas verdades”.


    Fiéis as “novas verdades”, estes arautos rejeitados, combinaram conhecimento e poder, anão demorou muito para avaliarem que a verdade, algo pelo que se poderia morrer, oferecia boas razões pelas quais se poderiam matar.


    Com o tempo chega-se a conclusão que toda “verdade pessoal” (fé) que pretende ser expandida e universalizada, necessariamente causa uma rejeição com a mesma pretensão, e com o tempo a difusão e diluição desta descoberta-verdade se transforma em opinião, preconceito ou mera crença.


    Verdades pessoais ou meras crenças só geram campos de batalha quando são impostos, mas se fosse possível criar “salas de conferência”, este seria o caminho embrionário ao entendimento, ainda que pareça retórica. A única sala de conferência que temos capaz de criar um elo ou um diálogo entre valores universais e individuais é a política.


A crítica da política-vida


    Como o Estado não mais promete ou deseja agir paternalmente, como os formuladores e projetistas da boa sociedade estão se extinguindo; e, como surge uma variada gama de consultores aptos para assumirem o papel dos legisladores, não é de surpreender que os críticos que desejam ser os profetas da emancipação lamentem sua privatização.


    A modernidade pesada está se esfacelando, e, assim, o discurso crítico que girava em torno dela logo sem seu objeto central, assim, o próprio discurso crítico poderá desaparecer.


    A percepção da performance da emancipação sob condições passadas ficou obsoleta; há uma nova agenda pública de emancipação ainda á espera de ser ocupada pela teoria crítica. Essa nova agenda pública ainda está á espera de sua política pública crítica, está emergindo junto com a versão “líquida” da condição humana moderna.


    O Estado, que antes fornecia os “insumos básicos” para a sociedade cumprir seu papel homogeneamente, emancipou-se desta tarefa e passou-a aos cidadãos, e agora, aqueles que antes lutavam pela sua auto-afirmação não sabem o que vão fazer com ela, uma, pois precisam gerar insumos básicos para mantê-la.


    As autoridades auto constituídas devem ser “sólidas” para serem reconhecidas como tais, porém deve também ser “líquido” o suficiente para não impedir a liberdade dos futuros movimentos cambiantes, voláteis e efêmeros. Este é o dilema que os críticos atuais têem a tentar reconectar sua disciplina á agenda da política pública.


    Toda teorização crítica antiga tinha um traço anarquista: todo poder era vista como suspeito e pertencente ao inimigo, todos os retrocessos e frustrações sofridas pela liberdade eram causados por estes mesmos inimigos e toda ameaça sempre era tida como vinda do “público”, o público sempre estava pronto para invadir e colonizar o privado, o subjetivo e o individual.


    Pouco ou nenhuma atenção foi dado ao esvaziamento do espaço público e a invasão inversa, e, assim, a esfera pública passa a ser colonizada pelo privado, tornando-se o principal obstáculo á emancipação.


    O poder político gera uma liberdade individual incompleta, mas quando ele é colonizado pelo privado prenuncia a impotência prática da liberdade legalmente vitoriosa.


    O trabalho do pensamento crítico é trazer á luz os obstáculos que se colocam no caminho da emancipação, tais como problemas privados em questões públicas e vice-versa, e trazer de volta a verdadeira missão da política-vida: assumir as visões da sociedade “boa” e “justa”. A busca de uma vida em comum alternativa deve começar pelo exame das alternativas da política-vida.    


     


  1. INDIVIDUALIDADE


   


    Há pouco mais de 50 anos, o pressentimento que se tinha do futuro da sociedade é de que seria, dentre outras coisas, um mundo estritamente controlado, onde a individualidade seria reduzida á nada ou quase nada, onde pessoas treinadas em obedecer a ordens e rotinas rejeitariam a liberdade, onde o mundo seria dividido entre administradores e administrados, entre projetistas e seguidores de projetos, e sem qualquer outra alternativa inimaginável.


Capitalismo pesado e leve


    “Ordem” significa, segundo Bauman, monotonia, regularidade, repetição e previsibilidade; dizemos que uma situação está “em ordem”, se e somente se alguns eventos têm maior probabilidade de acontecer do que suas alternativas, enquanto outros eventos são altamente improváveis ou estão inteiramente fora de questão. A ordem é seu próprio propósito e não requer legitimação.


    Por pelo menos 200 anos os administradores das empresas capitalistas que dominaram o mundo confinaram as trajetórias humanas. Era essa visão do mundo, em conjunto com o próprio mundo, formado e reformado á imagem desta visão, que alimentava e dava substância ao discurso dominante.


    O mundo que sustentava e dava credibilidade a este discurso era o mundo “fordista”, ou seja, o fordismo foi em seu apogeu, um modelo de industrialização, de acumulação e de regulamentação. O modelo fordista era um local epistemológico de construção sobre o qual se erigia toda uma visão de mundo. A fabrica fordista com sua produção em série de forma intrínseca, pragmática e repetitiva, dividindo o trabalho entre comandantes e comandados, foi sem dúvida a maior obra da engenharia social orientada pela ordem, a ponto de parecer não existir outra alternativa á fabrica fordista, nem obstáculo á expansão de tal modelo.


    O fordismo era a auto consciência da sociedade moderna em sua fase “pesada” e “sólida”, que combinava fábricas enormes, maquinaria pesada e força de trabalho maciça. O capitalismo pesado era obcecado por volume e tamanho, e por isso, também por fronteiras, fazendo-as firmes e impenetráveis.


    Diante do trabalho duro, mal remunerado e sem perspectivas de crescimento profissional e qualidade de vida, havia uma enorme rotatividade de funcionários na fábrica Ford. Isso atrapalhava a produção, foi quando Ford, para impedir a mobilidade de funcionários, resolveu dobrar seus salários, com um discurso cínico de que havia feito-o com objetivo de que cada trabalhador pudesse comprar seu próprio carro. Porém, começar a trabalhar na Ford era certeza de que a carreira seguiria seu curso no mesmo lugar, o rompimento com estas correntes foi o que marcou a decadência e a extinção aceleradas do modelo fordista.


    O ícone do “capitalismo pesado” é a fábrica Ford, enquanto o seu oposto, a empresa Microsoft, é o ícone do “capitalismo leve”, fluido, onde o capital e a empresa podem ser transportados, através de um note book, telefone celular e uma pequena pasta na bagagem de mão. Quem começa uma carreira na Microsoft não sabe aonde vai terminar. O mundo agora se recusa a estar parado.


Tenho carro posso viajar


    Max Weber errou em suas previsões quando diz que a burocracia é um protótipo e fôrma para a excelência da ação racional, o objetivo é o meio (a forma como se faz) e não o fim (o para que se faz).


    O “capitalismo leve” de hoje não é “racional por referência a valores”. O capitalismo leve está muito á frente da racionalidade referida a valores (o meio). Se alguma vez na história os valores foram abraçados “em termos absolutos”, isso certamente não é o que acontece hoje. Com a passagem do capitalismo pesado para o leve houve um desbaratamento de tudo o que absolutizava os valores.


    Segundo Gehard Schulze, estamos diante de um novo tipo de incerteza: “Não saber os fins, em lugar da incerteza tradicional de não saber os meios”. Não é mais o caso de tentar sem ter o conhecimento completo, calcular os meios em relação a determinado fim. O que está em pauta é como escolher diante de tantas opções de “fins” disponíveis, qual ou quais fins devem ter prioridade e relevância.


    A humanidade tem diante de si uma nova agonia: qual escolha deve fazer diante de tantos objetivos, pois escolher meios para estes fins serem alcançados não exige tanta reflexão. Há uma infinidade de oportunidades que tomaram conta do vazio deixado pela antiga forma de modernidade, e, ao contrário de antes, agora não há uma instituição controladora e castradora para vigiar-lhe e controlar-lhe em seu erro, nem tampouco uma instituição paternalista e protetora capaz de guiar-lhe ao acerto e proteger-lhe do perigo ou desacerto. Agora tudo ocorre por conta própria do indivíduo.


    Cabe ao individuo descobrir o que é capaz de fazer, e procurar melhorar e superar-se ao máximo, para servir melhor, com a máxima satisfação concebível. Neste novo momento nenhuma conquista ou derrota é considerada como definitiva tudo é mutável e evolutível, poucas coisas são permanentes, irredutíveis ou finais. Parta que as possibilidades continuem infinitas, nenhuma deve ser capaz de petrificar-se em realidade para sempre. As coisas devem ser fluidas e líquidas, e tenham “data de validade”, para que não excluam as próximas possibilidades emergentes e não nas deixe fora da próxima aventura.


    Este é o império as chances e possibilidades infinitas que surgem na mesma velocidade em que desaparecem. Nada nem ninguém podem podem estar permanentemente formados ou acabados, pois isso indica uma solidificação do fluído e, assim sendo, torna-se obsoleto, chegando ao fim do jogo. A consciência de que o jogo deve continuar sempre, não é a idéia de não avançar á algum tipo de conclusão, mas, sim, saber que devemos e3star sempre avançando durante o jogo, nos aprimorando sempre, pois nada é duradouro, nada é garantido, mas tudo é decadente.


    O mundo cheio de possibilidades é como uma mesa de bufê repleta de pratos deliciosos, que não se podem provar todos. Os comensais são os consumidores, e sua “pior tarefa” é estabelecer prioridades, a infelicidade dos consumidores deriva do excesso e não da falta de escolha.


Pare de me dizer, mostre-me!


    O capitalismo pesado, no estilo fordista, era o mundo dos que ditavam as leis, dos projetistas de rotinas e dos supervisores; era o mundo das pessoas dirigidas por outras, do modo determinado por outros. Era o momento do mundo das autoridades: de líderes que sabiam mais e de professores que ensinavam a proceder melhor.


    O capitalismo leve, amigável com o consumidor, não aboliu as autoridades que ditam as leis, nem as tornou disponíveis, mas deu margem para que um número cada vez maior de autoridades coexistisse e interagisse, de modo que nenhuma se mantenha por muito tempo ou atinjam a exclusividade. Várias autoridades juntas, com o tempo se anulam ou se equilibram, passando a não mais se imporem, mas, sim, sendo escolhidas. Essas autoridades não mais ordenam apenas se tornam agradáveis, tentadoras e sedutoras de quem as escolhem.


    O “líder” foi um produto não intencional, foi algo necessário para afastar o inapropriado, diante de um mundo que busca a “boa sociedade certa e apropriada”. Agora a redenção ou a condenação da sociedade está com o indivíduo e o que ele faz em relação a esta é responsabilidade dele, e não do líder.


    Não faltam pessoas que dizem “estar por dentro”, que carregam atrás de si seguidores e fãs. Tais pessoas “por dentro” (os que dizem dominar determinado assunto) não são necessariamente líderes, são, no máximo, conselheiros. Uma diferença crucial entre líderes e conselheiros, é que os líderes devem ser seguidos e os conselheiros podem ser contratados ou demitidos. O s líderes exigem disciplina, os conselheiros contam com a boa vontade e atenção do ouvinte.


    Os conselhos que os conselheiros oferecem é ao que as pessoas podem fazer por elas mesmas, cada uma por si - não ao que podem realizar em conjunto cada uma delas, se unirem forças. “Nós” é um pronome mais usado pelos líderes.


    As pessoas estão atrás de exemplos e não de ordens; ordens podem ser irreais e utópicas, exemplos são reais e palpáveis; exemplos são resultados alcançados com sucesso e pessoalmente, meu sucesso e meu trabalho são meus exemplos. Quem dá exemplos está dizendo com isso que, se ele conseguiu você consegue também.


Compulsão transformada em vício


    Procurar exemplos, conselhos e orientação pode ser um vício. Quanto mais se procura, mais se precisa e mais se sofre quando privado de novas doses da droga procurada. Como meio de aplacar a sede, todos os vícios são auto-destrutivos; destroem a possibilidade de se chegar á satisfação.


    Constantemente nos são oferecidos conselhos e receitas de sucesso, bastante atraentes, até o momento de serem testadas, pois logo depois do teste se vê que os resultados não são os esperados, e, ainda que “os prazos de validade” não vençam em breve tempo novas ofertas surgirão mais atraentes que tornarão as antigas obsoletas, e, assim, sucessivamente. A busca pelo utópico sucesso ou a felicidade ou a cura, é o que gera o vício (de procurar) e não o te alcançado o prazer do sucesso obtido.


    Cada membro de uma sociedade de consumo busca esta subjetiva e arque típica solução para seus problemas através do ato de comprar um produto (sucesso, felicidade, cura etc.). A compulção em comprar torna-se um vício. A busca ávida por novos exemplos aperfeiçoados e por receitas de vida é também uma variedade do comprar que pode tornar-se compulsiva e viciante.


Nós tendemos a comprar aquilo que nos causa necessidade ou desejo. Necessidade tem haver com aquilo que sentimos e sabemos realmente precisar; o desejo pode ser visto como aquilo que é despertado em nós artificialmente; é inventado e derivado. O consumismo de hoje desperta em nós algo que nem mais diz respeito a satisfação de uma necessidade, pois desperta, apenas o desejo, e, assim tentamos saciá-lo, mesmo que seja por algo supérfluo, para tentarmos outros desejos novos.


    Leva muito tempo e esforço e considerável gasto para se despertar o desejo, sua intensidade e canalizá-lo na direção certa. Logo, os consumidores guiados pelos seus desejos devem ser “produzidos”, sempre novos e á autos custos. O consumismo é fundado sobre a liberação de fantasias desejosas. Harvie Ferguson observa que:


“A noção de desejo liga o consumo á auto-expressão, e a noções de gosto e discriminação. O indivíduo expressa a si mesmo através de suas posses”.


    A história do consumismo é a história da quebra e descarte de sucessivos obstáculos “sólidos” que limitavam o vôo livre da fantasia, e reduziam o “princípio do prazer” ao tamanho ditado pelo “princípio da realidade”. A necessidade, considerada pelos economistas do século XIX como a própria solidez-inflexível, circunscrita e finita – foi descartada e substituída durante algum tempo pelo desejo, que era muito mais “fluído” e expansível que a necessidade, por causa de suas relações meio ilícitas com os sonhos plásticos e volúveis sobre a autenticidade de um “eu íntimo” á espera de expressão.


    Agora é a vez de descartar o desejo. Ele sobreviveu a sua utilidade; trazendo o vício do consumidor a seu estado presente.


   Um outro estimulante mais poderoso e mais versátil é necessário para manter a escravidão do consumidor no nível da oferta, o “querer”. O querer é o substituto tão necessário; ele completa a libertação do principio do prazer. Harvie Ferguson observa que:


“Enquanto a facilitação do desejo se fundamentava na comparação, vaidade, inveja e a “necessidade” de auto-aprovação, nada está por baixo do imediatismo do querer: A compra é casual, inesperada e espontânea. Ela tem uma qualidade de sonho, tanto ao expressar quanto ao realizar um querer que, como todos os “quereres”, é insincero e infantil”.


Corpo do consumidor


    A sociedade pós-moderna envolve seus membros primeiramente em sua condição de consumidores, e não de produtores. A diferença é fundamental.


    A vida organizada em torno do papel de produtor tende a ser normativamente regulada. Existe (há) um mínimo de que se precisa, a fim de manter-s vivo, e um mínimo dentro daquilo que se possa ou for permitido sonhar.


Desejar, perseguir, ter, acumular ou realizar sempre deve estar dentro da aprovação social, sem medo do desprezo e da rejeição. O que for ale disso é luxo e desejar o luxo é pecado.


    A vida organizada em torno do consumo não deve ter norma s e é orientada pela sedução, por desejos sempre crescentes e voláteis. A idéia de “luxo” não faz muito sentido, a menos que o “luxo” de hoje se transforme na necessidade de amanhã. A distancia entre o hoje e o amanhã é com o objetivo de criar uma “adequação” no indivíduo para que ele esteja sempre pronto para aproveitar todas as oportunidades que giram em torno das necessidades produzidas nele artificialmente. Estas novas oportunidades não podem ser completamente satisfeitas e nem podem ofuscar a novas necessidades geradas nele.


    A sociedade dos produtos coloca a saúde como padrão que seus membros devem atingir, enquanto que a sociedade dos consumidores desperta nos seus o ideal de aptidão (fitness). Embora saúde e aptidão sejam termos quase sinônimos e paralelos, nem tudo o que promove a saúde promove a aptidão e vice-versa. Saúde e aptidão são discursos diferentes com preocupações opostas.


    A saúde como todos os conceitos normativos da sociedade dos produtores, se estabelece entre a “norma” e a “anormalidade”. Saúde, corporal ou psíquica, é a condição “boa” que permite ao membro da sociedade cumprir com seus papeis de trabalhador, tendo um bom desempenho em sua empresa, apesar da onerosa carga física ou psíquica que o empregado tenha que passar.


    A “aptidão”, ao contrário é menos “sólida”, pois não pode ser medida com precisão. A “ideologia da aptidão” está sempre voltada para o futuro, “estar apto” é ter um corpo flexível e adaptável a qualquer circunstância nova e inesperada. Aptidão é uma propensão á expansão, é estar pronto ao não usual e rotineiro.


    Se a saúde diz respeito à “seguir normas” a aptidão diz respeito a quebrar as normas e superar os padrões. A aptidão por contraste com a saúde, diz respeito a uma experiência subjetiva, difícil de ser comunicada e comparada, a sua busca não tem um fim natural. A busca pela aptidão não possui descanso, e toda celebração de sucesso momentâneo é apenas um intervalo para o surgimento de um novo desafio, quem a busca sabe que não está apto e deve continuar tentando.


    A saúde, que pode ser quantificada e mensurada, cria a distinção entre a norma e a anormalidade, nem sempre deixa clara a sua plenitude (boa saúde), pois num mundo de infinitas possibilidades, o que antes era considerado satisfatório, hoje pode não ser mais, dentro do conjunto psicossomático, exigindo o uso de remédio. Assim a busca pela saúde torna-se uma guerra permanente contra a doença.


    O cuidado com saúde torna-se semelhante á busca pela aptidão: é contínuo, fadado á insatisfação permanente, incerto quanto à adequação de sua direção atual e gerando muita ansiedade.


Comprar como ritual de exorcismo


    Os tempos que assolam o “dono do corpo” levam-o a consumir mais, porém, consumir alimentos “saudáveis”, comprados no comercio. Este fator gera uma indústria bilionária dedicada aos alimentos dietéticos, academias, vitaminas, equipamentos de ginástica etc. Há, em suma, razões mais que suficientes para se ir ás compras.


    As interpretações comuns do comprar compulsivo como manifestação pós-moderna dos valores, vício materialista e hedonista, como incitação artificial á busca do prazer como máxima da vida, pode ser apenas parte da verdade. Outra interpretação é que a compulsão-transformada-em-vício de comprar é uma luta contra a aguda e enervante incerteza e o sentimento de insegurança incômodo e estupidificante. Os produtos trazem consigo a promessa de sucesso, segurança e satisfação.


    O comprar compulsivo é também um ritual feito á luz do dia para “exorcizar” as horrendas aparições da incerteza e da insegurança que assombram as noites. A qualidade destes “exorcismos” não está apenas no consumo diário e ininterrupto que afugenta os fantasmas, mas no próprio ato de consumar e, na sociedade dos consumidores individualizados, tudo deve ser feito por você mesmo.


Livre para comprar – ou assim parece


    Albert Camus observou que as pessoas de nosso tempo sofrem por não poderem possuir o mundo plenamente. E, como uma ilusão e ótica, achamos que a vida dos outros é uma obra de arte. Por eles terem, segundo pensamos, alcançado o que não alcançamos. Assim, todos tentam fazer de suas vidas a mesma obra de arte e estas chamam de “identidade”.


    A busca pela “identidade” é a busca pelo familiar, por tornar mais lento o fluido, de dar forma ao disforme. Uma vez que o mundo está constantemente fluindo e mudando, ter uma identidade permanente é algo utópico.


    Em vista da volatilidade e instabilidade das identidades, a moda fixa um padrão breve capaz de fixar alguém momentaneamente no tempo. E o fato de ir ao supermercado das identidades, é possível encontrar lá algum produto que afirme a sua diferença, embora seja este mesmo produto, consumido por milhares de consumidores com o mesmo objetivo e, assim, “conquista-se” a identidade tornando-se parecido com muitos.


    Os meios de comunicação criam imagens poderosíssimas nas telas que “parecem mais reais que a realidade” vivida, e a vida desejada passam a ser a da “TV”. E, assim, os meios de comunicação criam identidades ovas, que podem ser compradas e usadas no lugar da sua própria identidade, não se busca um produto quem se pareça com você, você é que procura parecer-se com uma marca, pois a identidade dela é melhor do que a sua.


    As coisas são ornamentos simbólicos da identidade e as ferramentas dos esforços de identificação, as pessoas logo as seguem. A produção destas “coisas-mercadorias” substitui hoje “o mundo dos objetos duráveis” pelos “produtos perecíveis”, com prazo de validade e garantia limitada. Diante deste mundo instável, com suas matérias primas “mutantes” usada na formação de identidades também instáveis, deve-se ter a máxima flexibilidade e aptidão aos reajustes deste mundo cambiante.


    No mundo pós-moderno todas as distinções se tornam fluidas, os limites se dissolvem e tudo pode muito bem parecer seu contrário, a ironia é substituída pelo glamour, e, assim, a aparência pode ser consagrada como a única realidade, e as identidades, assim, passam pos oscilações e mudança continua.


    Numa sociedade viciada em comprar-assistir os pobres não podem desviar os olhos; não há onde mais para onde olhar. A soma a liberdade vista na TV, das vitrines sedutoras e das ofertas constantes, afloram o sentido da realidade empobrecida e, assim, torna-se mais irresistível o desejo de se experimentar o que não se pode ter. Quanto mais escolhas parecem ter os ricos, tanto mais a vida sem escolha parece insuportável para todos.


Separados compramos


    A sociedade dos viciados em compras criou um novo código de valores, traduzido acima de tudo como a plenitude da escolha do consumidor, e como a capacidade de tratar qualquer decisão na vida como uma escolha de consumidor.


    A liberdade de tratar o conjunto da vida como uma festa de compras significa conceber o mundo como um depósito abarrotado de mercadorias, em que dada a quantidade de ofertas tentadoras, o potencial gerador de prazer tende a se exaurir rapidamente. Por exemplo, o “sexo de plástico”, “amores múltiplos”, “relações puras”, os aspectos da mercantilização das parcerias humanas, funcionam como veículo de emancipação e garantia de uma felicidade onde há uma escala sem precedentes de autonomia individual e na liberdade de escolha. Com o fluxo de oportunidades, crescem as ameaças de desestruturação, fragmentação e desarticulação.


  1. TEMPO/ESPAÇO


    O arquiteto inglês estabelecido na África do Sul, George Hazeldon, tem um sonho: construir um a cidade, em meio a uma outra cidade sinistra, perigosa, fedorenta, mal planejada e feia, que seria uma versão atualizada, high tech, da aldeia medieval que abriga por traz de seus grossos muros torres, fossos e pontes elevadiças; uma aldeia protegida dos riscos e perigos do mundo. Uma cidade feita sob medida para indivíduos que querem administrar e monitorar o seu estar juntos.


    Hazeldon chama sua cidade-sonho de Heritage Park, e diz as vantagens de sua cidade sobre os lugares onde a maioria das pessoas vive hoje em dia:


“Hoje a primeira questão é a segurança. Queiramos ou não, é o que faz a diferença... Quando cresci em Londres tínhamos uma comunidade. Você não fazia nada errado porque todos o conheciam e contariam para ser pai e mãe. Queremos recriar isso aqui, uma comunidade que não precisa se preocupar”.


    Tendo comprado uma casa no Heritage Park você ganha acesso á uma comunidade. Comunidade é hoje, a última relíquia das utopias da boa sociedade de outrora; é o que sobra dos sonhos de uma vida melhor, compartilhada com os visinhos melhores, todos seguindo regras de convívio. Por isso a comunidade é um ótimo argumento de vendas, uma vez que ela não aparece em projetos arquitetônicos.


    Dentre tantos medos modernos e personagens causadores destes, têm-se, de forma psicótica ou píssica, a figura do assaltante ou do anônimo estranho que coloca em perigo e ameaça toda a estrutura segura da comunidade. Assim, a segurança pública vem se tornando uma obsessão, a ponto de eleitores e elites, em vez de apoiarem a política governamental para eliminar a pobreza ou para administrar a competição étnica, escolherem em vez disso, comprar proteção, estimulando o crescimento da indústria de segurança privada.


Quando estranhos se encontram


    Na clássica definição de Richard Sennett, uma cidade é “um assentamento humano em que estranhos têm chance de se encontrar”. Isto significa que estranhos se encontram na condição de estranhos em terem um passado ou um futuro em comum, sem ter uma história continuada. O encontro com um estranho mais parece um desencontro, sem espaço para o ensaio, a tentativa ou o erro. O encontro com um estranho é simultaneamente informal e formal.


    A vida urbana é uma atividade sofisticada, onde a civilidade protege as pessoas umas as outras, aproximam-se, porém, mantendo a distância. A civilidade como linguagem não pode ser privada, pois ela é uma característica d situação social. O meio urbano é civil, e, assim, propício a pratica da civilidade individual.


    Uma cidade é comunitária, logo, não pode ser reduzida á interesses individuais. Porém, em quase todas as metrópoles do mundo usa-se muitas vezes o “espaço público” (praça) para construir monumentos á vaidade pessoal, que se afastam do modelo ideal civil: a praça para todos, para que todos interajam com todos, pois o todo da praça é de todos.


    Monumentos esplendidos que afirmam a “grandeza pessoal”, imponentes e impessoais, frios, sem árvores, sem gente, sem familiaridade são feitos, apenas, dentre poucas coisas para o glamour pessoal, pois não lembram a família, afastam as pessoas (exemplos: a praça La Défense – Paris; A cidade de Brasília; os Arcos da Lapa – Rio de Janeiro). São espaços públicos que não promovem a interação social.


    Outro tipo de espaço público, mas não civil, se destina a servir aos consumidores, ou melhor, a transformar o habitante da cidade em consumidor são, por exemplo, as salas de concerto, pontos turísticos, shoping centers etc...que estimulam a ação , mas não a interação. Nestes lugares feitos para o consumidor não se estimulam à interação entre os personagens presentes, pois poderia desviar a atenção dos produtos e diminuiria, assim, o lucro, o prazer e a tarefa de comprar.


    A tarefa é o consumo e, este, é individual, não há coletividade no consumo, em shoping centers todos estão individualizados pelas suas tentações particulares, embora sejam tidos como espaços públicos, tudo ali tem dono, e paga-se para interagir com este lugar.


    O templo do consumo é um espaço organizado, protegido, sedutor e livre aqueles que não se encaixam com o consumo. Ali não é lugar para socializar-se, se você pára para qualquer outro tipo de atividade que não seja compara logo é tido como estranho e suspeito, pois ali é lugar para se ver vitrines, escolherem, comprar e sair para experimentar, é um consumo como um fim em si mesmo.


Lugares êmicos, lugares fágicos, não-lugares, espaços vazios


O que quer que possa acontecer dentro do templo do consumo tem pouca ou nenhuma relação com o ritmo e teor da vida diária que flui fora dos portões.


    Ao contrário do carnaval, que se dá momentaneamente e dentro da mesma cidade, por um período determinado de tempo, que retorna ciclicamente, e que tem por objeto em si mesmo dar uma pausa á rotina diária – podendo ali viver um “outro lado” de nós mesmos, vivendo fantasias que não assumimos cotidianamente – o templo do consumo é diferente!


    No carnaval algumas regras são temporariamente suspensas, não há carnaval sozinho, pois é preciso uma interação direta com as pessoas, nós queremos ver as outras ao passo desejamos ser vistos por elas, sob uma fantasia. No templo do consumo o foco é outro não são as pessoas, mas os produtos em si mesmos. È um mundo diferente dentro do próprio mundo, onde queremos nos sentir pertencentes á algo que normalmente não podemos alcançar, mas, ali experimentamos “aromas e sabores” com os olhos, subjetivamente, como se pudéssemos, por um vislumbre, termos tudo ao nosso redor.


    Diferente das tradicionais lojas e mercados de rua, onde compramos o que precisamos e podemos e, ainda assim ao lado de pessoas conhecidas ou não, parecidas ou não, com “purificação” e segurança, o objetivo do templo do consumo é não ser familiar, é não parecer com aquilo que você experimenta cotidianamente, acompanhado ou só. Este “lugar sem lugar”, pretende que você sinta total segurança e higiene, para que você não reflita sobre o que deve fazer, mas faça, sem medo e contaminação, prejuízo ou arrependimento.


    Por outro lado, o templo do consumo faz-nos sentir também como em comunidade, ali estamos juntos com outros que possuem o mesmo objetivo, e por isso não precisamos fazer ou responder perguntas, não nos sentimos vigiados, estamos todos ali não para uma tarefa, mas por um impulso.


    Nos shoping centers a imagem se torna realidade, embora a realidade de ali estar junto, em comunidade, seja apenas imaginária, pois ali, o objetivo não é interagir com as pessoas, mas, sim , com produtos.


    Diante da necessidade de enfrentar a alteridade dos outros, Claude Lévi-Strauss assinala duas estratégias que foram usadas na história humana: a antropoêmica e a antropofágica.


    A estratégia antropoêmica consiste em “vomitar”, rejeitar os outros vistos como estranhos, alheios e inferiores. Assim, impede-se o contato físico, o diálogo, a interação social e qualquer outro tio de relacionamento. Hoje em dia a estratégia “êmica” é praticada através do encarceramento, a deportação e o assassinato. As formas modernizadas de estratégia “êmica” são: a separação espacial, os guetos urbanos, o acesso seletivo a espaços e o impedimento seletivo a seu uso.


    “A estratégia antropofágica consiste numa “desalienação” e “absorção” das substâncias alheias: “ingerir”, devorar” corpos e espíritos estranhos de modo á fazê-los, pelo metabolismo, idênticos aos corpos que os ingerem, e, portanto, não distinguíveis deles. Essa estratégia também assumiu de forma modernizada o seguinte: do canibalismo á assimilação forçada – cruzadas culturais, guerras declaradas contra costumes locais, contra calendários, cultos, dialetos e outros “preconceitos” e “superstições”.


    A estratégia antropoêmica visa o exílio ou a “aniquilação” do “outro diferente”, enquanto a antropofágica visa a “suspensão” ou aniquilação, apenas, da diferença do outro, assimilando-a. Nas lojas e mercados de rua de nossa vizinhança, normalmente familiares á nós, geralmente somos antropoêmicos, enquanto que nos templos do consumo agimos antropofagicamente.


    Seguido a categoria de lugares públicos, porém “não-civis”, temos os “não lugares” ou “cidades-de-lugar-nenhum”. Ou seja, lugares que tem por objetivo serem atravessados e deixados para trás, o mais rápido possível. Temos também os “espaços interditórios”, cuja função principal é impedir o acesso, sendo circundados para não serem atravessados.


    Os “não-lugares” aceitam a inevitabilidade de uma passagem, “meramente física”, mas não “socialmente inteira”, pois é um espaço sem identidade, relações e história (exemplo: aeroportos; cruzamentos rodoviários com praças embaixo de viadutos; quartos de hotéis anônimos; transporte publico etc.). Jamais na história do mundo os “não-lugares” ocuparam tanto espaço e sem exigirem o domínio da civilidade.


    Outro lugar onde as diferenças éticas, financeiras sociais etc... podem ser tornadas invisíveis e, até mesmo impedidas de serem vistas, são os “espaços-vazios”. Os espaços vazios são lugares a que não se atribui significado, não são delimitados, não são proibidos, não são incentivados, mas são inacessíveis por serem invisíveis, e freqüentados, mas não habitados. O espaço vazio é não colonizado, são lugares que “sobram” no meio de projetos e outros espaços importantes, e usualmente familiares.


    Os espaços vazios são, também, resíduos inevitáveis existentes entre os familiares espaços onde interagimos com nossos “semelhantes”, mas que não são ocupados por mitos usuários diferentes.


    O s espaços vazios são os lugares da cidade os quis somos indiferentes á eles e eles inúteis, ameaçadores ou desconhecidos para nós, ou seja, passamos algumas vezes por eles em carros, segura e isoladamente, mas se fizéssemos o mesmo percurso á pé, nos sentiria ameaçados.


Não fale com estranhos


    A civilidade nos permite interagir com estranhos sem impormos á eles nossa “forma” e sem exigir que abandonem a forma deles. A principal característica do “lugar-publico-mas-não-civil” é a dispensabilidade desta interação, pois ali é permitido ser educadamente indiferente á tudo e á todos que estão á sua volta, ninguém é forçado á buscar relações com ninguém, embora não evite o contato recíproco, antes até o supõe, e foram criados para isso mesmo, ou seja, a relevância está em estar naquele lugar no meio de outros e não com os outros.


    Como indica Richard Sennett: “invocam-se mais a lei e a ordem quando as comunidades estão mais isoladas das outras pessoas da cidade”. Durante as últimas duas décadas as cidades nos EUA cresceram de forma que homogeneizou as áreas étnicas: não é por acaso então, que o medo do estranho cresceu á medida que essas comunidades étnicas foram isoladas.


    Porém, à medida que a uniformidade se identifica com a homogeneização, o mesmo acontece com o horror ao perigo representado “pelos estranhos o portão”. O que no começo era mera suposição, agora é verdade comprovada, onde a visão que se tem dos estranhos mistura-se com os medos pela insegurança. A “poética idéia do bem comum” torna-se suspeita e nebulosa diante da proximidade com algo que não se entende e não se aceita, e, assim, vão se solidificando os blocos em torno daqueles que possuem a mesma identidade, tornando-se mais difícil a penetrabilidade e o diálogo. Logo, surgem os nichos escavados com o intuito de criar um território ou um “espaço defensável”, especo este, priorizado pela política dos que tem a mesma identidade.


    Todo aquele considerado “outro” ou estrangeiro, são excluídos pela falta de diálogo e negociação, e, assim, “não fale com estranhos” – outrora uma advertência de pais zelosos a seus pobres filhos – tornou-se o preceito estratégico da normalidade adulta.


A modernidade como história do tempo


    A modernidade gerou a história do tempo. Há algum tempo atrás a idéia que se tinha sobre tempo e espaço era sobremodo diferente da idéia que possuímos hoje. Media-se o tempo em relação ao espaço, de acordo com o período e a distância que era percorrido á pé ou á cavalo. Empiricamente não se calculava em uma velocidade constante o espaço percorrido em uma determinada direção, especulava-se mais sobre a força e a capacidade para se cruzar um determinado obstáculo, do que calcular-se a divisão do tempo exatamente. A modernidade é o tempo historiado.


    Filósofos, cientistas e inventores conseguiam, através de seus avanços, objetivarem a relação entre espaço e tempo. Assim, com a construção de veículos que podiam se mover mais rápidos que os homens ou os animais, a ponto de se atravessar distancias cada vez maiores em menos tempo, toda a concepção de tempo-espaço mudou e não para de evoluir. O tempo se tornou algo independente das dimensões inertes, grandes massas de terra e os mares, pois o tempo ode ser manipulado ao passo que o espaço não. O tempo torna-se dinheiro quando é usado como uma ferramenta.


    Quem andava á pé ou á cavalo não conseguia uma performance muito diferente da do outro, mas com o advento do vapor e do motor á explosão, essas performances mudaram enormemente. As pessoas podiam agora chegar muito antes que as outras, “podiam fugir”, e quem viajasse mais depressa conseguiria reivindicar mais território, poderiam controlá-lo, mapeá-lo, supervisioná-lo e até vendê-los, mantendo-se distancia dos que chegavam depois.


    A modernidade nasceu sob as estrelas da aceleração e da conquista de terras, “quem chegasse primeiro era o dono”. Para maximizar o valor era preciso afiar a ferramenta, o princípio ativo da civilização moderna está focado em realizar o maior número de tarefas em menor tempo, eliminando-se o ócio, o tempo improdutivo, o vazio e o desperdício.


Da modernidade pesada á modernidade leve


    A modernidade pesada ou “era do hardware” era obcecada por volume e pela quantidade – quanto mais e maior melhor, tamanho e poder, volume é sucesso – assim, a conquista do espaço era o objetivo supremo. Ter o máximo possível no menor tempo possível e encherem-se espaços rapidamente, colonizar, eram outras obsessões da modernidade pesada.


    Riqueza e poder que dependem do tamanho são grandes, pesadas, imóveis, requerem muita manutenção e proteção e, assim, tendem a se tornarem lentas resistentes á mudança e complicadas de mover. Porem, na versão pesada da modernidade o progresso e o status significavam tamanho crescente e expansão espacial.


    A “fábrica fordista” tornou-se o padrão e símbolo para a rotinização do tempo e das funções, para a racionalidade planejada e para a uniformização dos processos, excluindo-se, assim, a criatividade. Quem começava uma carreira na Ford provavelmente terminaria sua carreira no mesmo lugar.


    Com novas descobertas e inventos, porém, o tempo foi sendo dominado e o espaço tornando-se irrelevante, os conceitos de perto ou longe, grande ou pequeno, hoje ou amanhã ficaram obsoletos e o tamanho perde seu valor estratégico. Valores antigos são superados por valores novos e, agora, as coisas valem exatamente o que custam. Hoje, distancias cada vez maior são atravessadas quase que instantaneamente por sinais eletrônicos, os movimentos são praticados em tempos mais curtos e o espaço é desvalorizado.


A sedutora leveza do ser


    A distância, em tempo, que separa o começo do fim caminha para o desaparecimento, este é o tempo do “software”, é o tempo instantâneo e sem substância, sem conseqüências.


    O trabalho antes corporal e ligado coletivamente ás instalações industriais, era ligado ao capital, o que limitava a liberdade operacional da produção e dos empregadores. Agora estamos vivendo uma transformação, ou seja, a “descorporificação” do antigo trabalho humano, onde o tipo fordista de instalações e produção é tido como obsoletos. O capital ficou livre dos altos custos do estilo fordista e, assim, a era do “software” manipula um capital “extraterritorial”, volátil e inconstante. Que viaja leve e rápido, tornando-se risco o volume e o tamanho.


    A obsessão agora é cortar gastos, desfazer-se do “pesado”, do obsoleto, de tudo o que não é produtivo ou eficaz, o que inclui também a venda de equipamentos, instalações e “mandar mão de obra embora”. Porém, surge a mania das fusões com o objetivo de conseguir mais espaço para as operações de redução de tamanho, que oferecem ao capital e ao poder financeiro, maior leveza para viajar globalmente. Assim, esta capital flutuante substitui compromissos duradouros por negócios de “curto prazo”.


    Os trabalhadores dos cortes permanentes sonham agora com a sobrevivência em seus postos, pois reduzir o tamanho, até dos escritórios é uma tendência irreversível.


Vida instantânea


    Bill Gates, ao contrário de Rockefeller que queria possuir oleodutos, prédios, máquinas ou estradas-de-ferro por longo tempo, é livre da obsessão de agarrarem-se as coisas. Gates mais parece um jogador disposto a mudar de estratégia, direção ou mesmo abandonar um projeto que nem foi testado, desde que este se mostre obsoleto. Suas cadeias de produção são descartáveis. Assim, a indiferença em relação á duração transforma a imortalidade de uma idéia numa experiência e faz dela um objeto de consumo imediato.


    A fluidez da instantâneidade causa a idéia de infinitude, por mais breve e fugaz que seja, e o “longo prazo” perde seu significado, pois se o infinito com o tempo é instantâneo, então “mais tempo” deixa de agregar valor. Ao contrário dos “objetos duráveis” os “transitórios” são feitos para serem consumidos e terminados, para que haja a necessidade de se consumir o mais avançado que vê á frente, e assim sucessivamente. A nova instantâneidade do tempo tem mudado radicalmente as relações no convívio humano e seu comportamento. Corpos esguios, roupa leve e tênis, telefones celulares, pertences portáteis ou descartáveis são os principais “objetos culturais” da era da instantâneidade.


  1. TRABALHO


    Progresso, ou “ir para frente”, são palavras que marcaram o mundo de modernidade pesada a partir do final do século XIX. “Para frente” era o destino que teria como veículo sua jornada de trabalho. Progresso, por sua vez, não é algo que flui naturalmente como um acaso da história, ele é intencionado, buscado, ultrapassado, e assim sucessivamente, pois é obra nossa. O progresso não aponta para o passado, mas para o futuro, e o futuro era criação do trabalho, e o trabalho a fonte desta criação. Porém, para se dominar o futuro é preciso estar com os pés firmemente plantados no presente. Os que pensam manter o presente nas mãos tratam do passado como algo irrelevante, pois o progresso não eleva a história que pode ser contada, mas, sim, a que ainda não se contou.


Progresso e fé na história


    O “progresso”, que não representa qualquer qualidade da história, é a auto confiança do que se faz no presente visando o futuro. Porém, a idéia de progresso pode ter duas conotações diferentes: para aqueles que acham poder mudar o futuro, por manipulação de oportunidades, o progresso é um grande evento. Mas para aqueles que não conseguem aproveitar ou ver as oportunidades o progresso é uma fantasia ou pura utopia. Assim, a questão mais relevante da modernidade líquida não é “o que fazer”, mas, sim, “quem vai fazer”.


    Antes na modernidade pesada, quem fazia e “deveria fazer” era o Estado, “sabedor do que fazer” determinava as tarefas a serem feitas e quem as faria, porém, uma vez que a antiga estrutura do Estado moderno está ruindo, a percepção tida é que num futuro breve teremos a “sensação de termos entrado em um avião e no meio do vôo descoberto que o piloto sumiu”. O centro de controle se tornou oculto: nunca mais será ocupado por um líder conhecido ou por uma ideologia clara.


    Ainda sim, há fé na história e no progresso, no sentido de que a vida pode ser melhorada através do trabalho, pois a modernidade só enxerga a vida “feita”, construída por homens e mulheres, que se projeta no futuro e sempre está incompleta e inacabada. A modernidade líquida ou “capitalismo leve” pensa que o que quer que tenha sido feito nunca será o suficiente, haverá sempre um desafio perpétuo, e, este, não é mais da coletividade, mas do indivíduo ás suas próprias custas.


    O trabalho neste tempo moderno é visto como o atributo individual para a conquista e controle do futuro, gerando desenvolvimento, expansão, riqueza e a eliminação da miséria; foi o trabalho reconhecido e instituído que trouxe a ordem e deu o comando sobre seu destino á humanidade.


    O trabalho era visto como obrigação e destino de toda espécie humana, era sua condição natural e determinante da riqueza e da conquista, e o estar sem trabalho era considerado uma anormalidade, causadora da miséria, da privação e da depravação. Assim, o trabalho era visto como uma virtude que eleva os padrões éticos da sociedade.


    Hoje em dia o trabalho não oferece mais segurança para as idéias que giram em torno de projetos de vida ou identidade, e nem é concebido mais como fundamento ético da sociedade, ou como eixo ético da vida individual, agora, seu significado é mais estético. Ou seja, seu status não está mais em seu serviço á coletividade, mas, sim, ao que ele possa proporcionar por si mesmo e em si mesmo.


Ascensão e queda do trabalho


    De acordo com o dicionário Oxford de inglês temos as seguintes definições para trabalho: Em 1776, trabalho: “esforço físico dirigido a atender as necessidades matérias da comunidade”. Um século depois veio a significar: “o corpo geral dos trabalhadores e operários que tomam parte na produção”. Pouco mais tarde, também sindicatos e outros corpos que interagiam com a política e o poder político.


    Historiadores econômicos concordam que os níveis de riqueza e renda eram muito semelhantes em algumas civilizações tais como: A Roma do século I, da China no século XI, da Índia no século XVII, e que a Europa no limiar da Revolução Industrial mantinha seu nível próximo a estas.


    A renda per capita na Europa ocidental no século XVIII não era mais que 30% mais alta que a da Índia, África ou China daquelas épocas. Porém, por volta de 1870, a renda per capita na Europa industrializada era de 11 vezes maior que nos países pobres do mundo. No curso do século seguinte este curso quintuplicou chegando a 50 vezes em 1995.  


    Com o aparecimento da economia política, e o fim da idéia econômica que girava em torno da produção e da troca, o trabalho passa a ser visto como mercadoria, assim, o “esforço físico e mental” passam á ser visto como uma “coisa”, algo a ser manipulado, movido, reunido a outras “coisas” ou feitas em pedaços. Ou seja, antes, por exemplo, a terra seu cultivador e a riqueza eram vistas como uma coisa só, mais tarde cada uma destas partes são consideradas independentes. O trabalho deixa de ser hereditário e emancipa-se.


    Com sua emancipação o trabalho passa a ser visto como produto de pensamento e ação racionais era a fonte da riqueza, portanto, deveria ser explorado com maior eficiência. Assim, capital e trabalhadores passam a estar unidos através da transação de compra e venda, os donos do capital tinham que manter a capacidade de comprar o trabalho, enquanto o trabalhador deveria manter-se forte e saudável para vendê-lo, e o Estado passa a agir como mediador das transações.


Do casamento á coabitação


    A individualização é a nova força presente, capaz de inibir, coibir e destruir o chamado “interesse comum”, uma vez que, unir forças, debater em conjunto, formar blocos em conjunto etc...não é visto mais como solução em um mundo que “bóia em interesses próprios”.


    Essa nova forma de individualidade enfraquece, inclusive, as relações trabalhistas, com a desregulamentação do trabalho e novas formas de emprego temporário, terceirização, quarteirização, minando, assim, o espírito de militância e participação política. A utilização de trabalho de curto prazo impede ou desestimula a busca de interesses comuns. Empregos que dêem um pouco ais de estabilidade podem ser deixados pelo trabalhador desde que uma nova oferta surja oferecendo pouca coisa a mais, o que causa uma cumplicidade efêmera e frívola nas relações profissionais.


    A presente versão fluída da modernidade não dá tempo ao divórcio ou a ruptura final da comunicação nas relações trabalhistas, anunciando, assim, o capitalismo leve marcado pelo desengajamento e enfraquecimento dos laços que prendem o capital. Essa relação profissional espelha a passagem do casamento para o “viver junto”, onde ninguém e obrigado a conviver junto depois que uma das partes se cansa da relação, e a coabitação é vista como algo transitório que pode ser rompido desde que o desejo pessoal desapareça.


    Desta mesma forma, o capital e a satisfação dos acionistas não se relaciona mais se prendendo ou mantendo uma relação paternalista com o trabalhador e vice versa, tudo gira em torno do momentâneo interesse pessoal. Assim, o desejo de investir raciocínio, criatividade e moral no desenvolvimento do trabalho para com a empresa e da empresa para com o trabalhador está terminando. O mercado vê como boas relações de trabalho aquelas que sejam menos sólidas e o mais fluídas possível.


Digressão: breve história da procrastinação


    Cras, em latim, quer dizer amanhã; crastinus é o que pertence ao amanhã. Procrastinar é pôr alguma coisa entre as coisas que pertencem ao amanhã. “Pôr algo lá” implica imediatamente que o amanhã não é o lugar desta coisa. Para ser destinada ao amanhã, essa coisa primeira teve que ser tirada do presente ou teve barrado seu acesso a ele. Contra a impressão que se tornou comum na era moderna, procrastinação não é displicência, indolência ou lassidão; é uma posição ativa, uma tentativa de assumir o controle da seqüência de eventos e fazê-la diferente do que seria caso se ficasse dócil e não se resistisse.


    O tempo presente carece de valor e sentido, pois o mais importante é o que está diante de nós, vive-se a vida como uma peregrinação.


Os laços humanos no mundo fluído


    Há dois tipos de espaço ocupados por dois tipos de categorias de pessoas, diferentes em sua lógica, experiência de vida e com definições distintas. Todavia ambas habitam o mesmo mundo da vulnerabilidade e da precariedade. O mundo contemporâneo vive a combinação da incerteza e da insegurança.


    O habitante da modernidade contemporânea enxerga sua sobrevivência através do seu emprego, e, este, por sua vez, sucumbe diariamente como causa daquilo que ele mesmo produziu, a modernidade líquida. O emprego estável em uma empresa estável, agora é uma nostalgia dos tempos dos avós, a competitividade, a produtividade e a eficácia agora são substituídas pela flexibilidade ou pela adaptabilidade á novas situações. Os laços humanos são cada vez mais frágeis.


A auto perpetuação da falta de confiança


    A modernidade passada tinha como característica mais importante a confiança, a confiança em si mesmo, nos outros e nas instituições. Pensava-se que esta confiança, que trazia consigo a idéia de estabilidade, se perpetuaria no decorrer do tempo, e a empresa que gerava empregos era o luar por excelência para a disseminação desta confiança.


    Hoje não se vê mais as “empresas empregadoras” como padrão de confiança, uma vez que, constantemente, passam por reengenharias, reduções, fusões e falências. Não é mais seguro dedicar a sua vida profissional á mesma empresa, pois a volatilidade do capital global faz com que o que você ganhou hoje possa ser tirado amanhã sem aviso prévio.


  1. COMUNIDADE


    A razão é ou era vista como algo que não deixaria que o ser humano errasse o caminho, porém, a história é repleta de tropeços que desviaram a conduta correta da humanidade, tropeços ais como preconceitos, superstições ou falsa consciência. Logo, libertar a razão humana significava libertar o indivíduo destes e outros tropeços. O indivíduo que se “auto constrói” ou se “auto afirma” é uma pessoa que usa a linguagem e é escolarizada-socializada, embora antes de pensar em formar códigos de convívio ele já vivesse em comunidade.


    Mesmo já vivendo em comunidade, os indivíduos faziam e fazem escolhas pessoais que os difere do grupo onde essa possibilidade era negada, levando-os a procurarem outros grupos, homogêneos á eles, para formarem uma comunidade mais parecidas com eles. Porém, para formar outro projeto comunitário trilha-se o mesmo caminho que os levou ali, ou seja, ainda assim será preciso formar escolhas individuais que se negam á outras do mesmo grupo. Assim, o comunitarismo é uma reação a acelerada “liquefação” da vida moderna, é uma reação ao crescente desequilíbrio entre a liberdade e as garantias individuais.


    A fragilidade e transitoriedade dos laços humanos na modernidade líquida, através de uma individualização sem precedentes que sobrecarregam o indivíduo com uma carga de responsabilidades grande e pesada, levam-o por sua vez, a buscar o comunitário no sentido de unir forças. Todavia, paradoxalmente estes se unem através do comum, mas com tempo descobrem seus objetivos diversos que os levam novamente a laços fúteis e efêmeros.


    Quando a comunidade entra em colapso, inventa-se a identidade e, embora tenha que escolher entre diferentes grupos de referência de identidade, sua escolha implica a forte crença de que quem escolher não tem opção a não ser o grupo específico que “pertence”. A comunidade ideal é vista como um mundo total, que oferece tudo de que se pode precisar para levar uma vida significativa e compensadora, mas não uma vida total. O mundo total é visto como completo, pois o resto que está fora dele é hostil e cheio de inimigos, o abrigo comunitário é formado por indivíduos que possuem os mesmos medos.


Nacionalismo, marco 2


    A comunidade do evangelho comunitário é étnica, possui a mesma história e natureza, ou o mesmo modelo. O modelo, por sua vez, não é uma questão de escolha que se dá entre diferentes referenciais de pertencimento, mas entre pertencimento e falta de raízes, entre um lar e a falta de um lar, o ser e o nada, este é o dilema que o evangelho comunitário quer tornar claro.


    O comunitarismo contemporâneo, por sua vez, através do Estado-nação deveu seu sucesso á supressão de comunidades que se auto-afirmavam e, assim, lutou contra os costumes e dialetos locais, promovendo uma língua unificada e uma memória histórica ás expensas das tradições comunitárias. Daí surge a distinção entre patriotismo e nacionalismo, ou seja, o nacionalismo quer afirmar a existência tribal pela agressão e ódio aos outros, pois acredita que todos os infortúnios de sua nação são o resultado de conspirações estrangeiras. Já o patriotismo destaca-se pela “benevolente tolerância em relação á variedade cultural e especialmente ás minorias éticas e religiosas”.


    È a natureza dos sentimentos e paixões e suas conseqüências comportamentais e políticas que contam e afetam a qualidade do convívio humano, e não as palavras que usamos para descrevê-las. O patriotismo é antropofágico, o nacionalismo é antropoêmico.


Unidade – pela semelhança ou pela diferença?


    O “nós” do credo patriótico-nacionalista significa pessoas como “nós”, “eles” significa que são diferentes de nós. Porém, embora não sejamos iguais em tudo, uma vez que há diferenças marcantes em nós, temos a tendência de minimizar essas diferenças e nos agregarmos uns aos outros a partir de nossas semelhanças. Ainda assim há as nossas diferenças cruciais, ou seja, aquelas que ultrapassam em importância qualquer tipo de semelhança relevante. Sobre essas diferenças cruciais, não se faz fronteiras posteriormente ao descobrimento delas, mas, sim, previamente a sua descoberta.


    O nacionalismo tenta erradicar qualquer probabilidade de aproximação, aglutinação ou assimilação do “outro”. Já o patriotismo é mais tolerante, hospitaleiro e acessível, mas o resultado último é muito semelhante ao do nacionalismo. Portanto, nem o nacionalismo nem o patriotismo admitem a possibilidade de que as pessoas se unam mantendo-se ligadas ás suas diferenças. À medida que uma “boa polis” avança em direção á unificação dos diferentes ela se torna uma “polis pior”.


    Todavia, a sociedade civilizada é inerentemente pluralista e a negociação e conciliação de interesses “naturalmente diferentes” é algo que traz mais vantagens á todos que a coação e a opressão. O pluralismo da sociedade moderna é algo que amplia os horizontes da humanidade, agrega valores e multiplica as oportunidades. Logo, em oposição ao nacionalismo ou ao patriotismo, o tipo mais promissor de unidade é aquela alcançada a cada dia pelo confronto, debate, negociação e compromisso entre valores, preferências e caminhos escolhidos para a vida e a auto-identificação de muitos e diferentes membros da polis.


Segurança a um certo preço


    Os apóstolos do culto comunitário dizem que o excesso de liberação pode ser desconfortável para a comunidade, que a liberdade e a segurança não crescem juntas e o enraizamento desta liberdade faz aumentar a segurança. Paradoxalmente uma ameaça a potencialidade da outra.


    A família, os colegas de trabalho, a classe e os vizinhos são fluídos demais para objetivarmos com e através deles planos de longo prazo, a idéia de “nos encontrarmos amanhã” tornou-se algo utópico, sendo o mais coerente pensarmos no amanhã vivendo em uma nova situação com novas pessoas.


    Certa vez Émile Durkheim disse que “as ações que têm uma qualidade duradoura são dignas de nossa volição, apenas prazeres duradouros são dignos de nossos desejos”. Essa era uma lição que a modernidade sólida incutia em seus habitantes, mas que hoje soa estranha e vazia aos ouvidos contemporâneos, uma vez que, as sociedades têm uma vida mais longa que os indivíduos. Assim sendo, só nos permitem saborear satisfações efêmeras. A sociedade é um corpo que nos abriga de nossa própria transitoriedade, logo, excessos de liberdade dentro de um convívio fútil ameaça a segurança do grupo como um todo.


Depois do Estado-Nação


    Nos tempos modernos a Nação era a “outra face” do Estado, enquanto a Nação fornecia a homogeneidade em meio a uma heterogeneidade das sociedades que fazem parte dela, o Estado, por sua vez, fornecia a segurança e a estabilidade da Nação.


    Hoje, sob novas condições o Estado tem poucas coisas a oferecer á Nação, uma vez que o estímulo contemporâneo é o “faça você mesmo”, em reação a um Estado que cada vez menos oferece esperança e garantias. O Estado tem sido cada vez mais minado pelas políticas econômicas extraterritoriais e globais oferecidas por outras nações que por sua vez sofrem a mesma ameaça globalizante e, assim, o Estado que se recusa a participar das novas regas globais está cometendo um grave erro, e muitas vezes será punido economicamente.


    Em uma breve versão padronizada da “história da civilização”, vemos a ascensão gradual, mas incessante da sedentariedade sobre o nomadismo. Os povos nômades eram vistos como primitivos, bárbaros e subdesenvolvidos, enquanto os povos sedentários aperfeiçoaram as relações do homem com a terra, desenvolvendo leis, o progresso cultural e a civilização. Assim, o progresso era identificado com o abandono do nomadismo, foi o que aconteceu com a modernidade pesada, com sua sede e conquistas, anexação e colonização de territórios, logo, quem tivesse ais e fosse maior, dominava e extinguia o menor.


    Hoje em dia a modernidade líquida não objetiva o maior, a quantidade e o fixo, mas, sim, o mais leve e rápido, pois na modernidade líquida domina-se através da velocidade e mobilidade. Logo, a apropriação e o povoamento de territórios se tornam uma desvantagem, pois despendem tarefas caras, embaraçosas e não lucrativas tais como administração e policiamento que atrapalham a liberdade de movimento. O poderio a elite global reside em sua capacidade de escapar aos compromissos locais que onerem sua mobilidade e leveza.    


Preencher o vazio


    Para as multinacionais, o “mundo ideal” é um mundo sem Estados, ou pelo menos com pequenos e não grandes Estados, pois quanto menor o Estado mais fraco ele é. Hoje temos o sistema de economias nacionais dos Estados, e o sistema real, mas não oficial, das instituições transnacionais. O poder do Estado se manifesta em seu território, porém, a Nação é capaz de ultrapassar pela globalização da economia.


    Vemos que o principio da soberania dos Estado-Nação está desacreditado e removido dos estatutos do direito internacional. Assim, a capacidade de resistência dos Estados não mais é levada em conta pelos poderes globais e o que se espera é a substituição do “mundo das Nações” pela supranacional ou sistema político global.


    A extinção do poder institucional do Estado-Nação facilmente levará, por sua vez, á um desequilíbrio social gerador de novas formas de violência e crimes, onde os genocídios e guerras diminuirão dando lugar á conflitos entre comunidades ou neotribal. Todo indivíduo ou grupo que ameaçar a estabilidade e a identidade a comunidade será visto como inimigo mortal, e quem eliminá-lo terá status de benfeitor.


    As populações sedentárias que precisam do Estado para manterem-se seguras em seus territórios, agora se vêem sitiadas pelo “novo poder nômade”. A elite global nômade é que “vira a mesa” no jogo do poder, e passa a ver como bárbara e ultrapassada as obsessões territoriais das sociedades de modernidade sólida e sedentária vindo, assim, a preencher o vazio.


Cloakroom communities


(comunidades de guarda-casacos, em alusão aos locais em museus e teatros, deixam-se capas e casacos que são retirados á saída).


    Os freqüentadores de um espetáculo se vestem para a ocasião de forma padronizada, obedecendo a um código distinto do que seguem diariamente. Enquanto durar o evento todos parecerão uniformes, diferente da vida fora do teatro. Ao entrarem no auditório deixam os sobretudos ou capas que vestiram nas ruas no cloakroom da casa de espetáculos. Durante a apresentação os olhos de todos estarão presos no palco, porém depois que as cortinas se fecham, os espectadores retiram suas roupas de rua outra vez, retornam á seus papéis mundanos, ordinários e diferentes dissolvendo-se na multidão.


    O cloakroom precisa de um espetáculo que chame a atenção e despertem os interesses semelhantes em indivíduos diferentes, e que os reúna durante certo tempo em que outros interesses - que os separam em vez de uni-los – são temporariamente postos de lado.


    “Comunidades de carnaval” parece ser um outro nome adequado para as comunidades em discussão, pois dão um alívio temporário ás agonias de solitárias lutas cotidianas. “Comunidades explosivas” são eventos que quebram a monotonia da solidão cotidiana, liberam pressão e permitem que os foliões suportem melhor a rotina a que devem retornar. Essas comunidades temporãs são uma característica da modernidade líquida, onde a mídia sempre oferece um objetivo comum em torno do qual as comunidades e indivíduos podem se entrelaçar, atraídas e repelidas por sensações sincronizadas de pânico e êxtase.


    Uma vez que estes “espetáculos” que “unem ou ajuntam” não perduram, eles impedem que os indivíduos e grupos se condensem em comunidades genuínas e, assim, acabam por espalhar perpetuando a solidão generalizada. Estes são alguns dos sintomas da desordem social da condição de modernidade líquida.