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domingo, 22 de setembro de 2013



Quando os crentes davam certo (1)

   

    A primeira razão porque os crentes davam certo no Brasil, no passado, é que eles eram discriminados e perseguidos. Só entrava para as Igrejas evangélicas quem estava disposto a pagar o preço. O martírio integrava o protestantismo. Quem não agüentava o tranco, saía. Isso purificava a Igreja e lhe dava grande coesão interna. Todos eram “de mesmo", naquele contexto adverso não havia lugar para "crentes festivos".

    Durante a vigência da Constituição Imperial (1824) o documento de identidade era a certidão de Batismo na Igreja Católica Romana. Quem não fosse batizado, nem existia, nem era cidadão. Os protestantes, como os demais não-católicos, não podiam ser funcionários públicos, não podiam se candidatar a cargos eletivos, seus casamentos eram nulos (todo mundo, tecnicamente, "amasiado" por amor a Cristo), porque o único documento de casamento válido era o emitido pela Igreja Romana, e quando a pessoa protestante morria tinha que ser "plantado" em algum terreno, porque todos os cemitérios eram administrados pelas Paróquias católicas romanas, e nele só podiam se enterrar quem tivesse recebido o rito de extrema-unção de um sacerdote daquela confissão. Com a Constituição republicana de 1891 veio a separação Igreja-Estado, cessaram as discriminações legais, mas aumentaram as perseguições. As novas levas de padres e freiras missionários que foram importados pela Igreja de Romana na Primeira República (1889-1930) vinham com a missão de "combater os protestantes". Crianças e jovens eram perseguidos nas escolas, profissionais nos empregos, proibia-se o aluguel de imóveis comerciais e residenciais para os "nova-seita", também conhecidos como "bodes", Igrejas eram apedrejadas, pessoas fisicamente agredidas, amizades e vínculos familiares eram rompidos. A imprensa incitava contra essa fé "estrangeira". O hino de um Congresso Eucarístico cantava: "Quem não for bom católico, bom brasileiro não é". Bíblias eram queimadas. Paredes de templos protestantes eram levantadas de dia, para serem derrubadas de noite. "Protestante é pobre, burro e feio". Casar minha filha com um deles, nem pensar... Na cidade de minha família materna, em Alagoas, um padre holandês, se referindo à artéria onde residiam as melhores famílias da cidade, compusera a quadrinha de gozação:

"Na Rua do Rosário, ninguém pode mais passar São bodes e cabrinhas, todos eles a berrar..."

    Com raras exceções localizadas, esse quadro não mudou muito até o início dos anos 1960, e a realização do Concílio Vaticano 11.

Mais de um século de dureza! Naquele contexto, que requeria autenticidade, a permanência e o crescimento do protestantismo foram marcados por atos de heroísmo e muito martírio. Naquele contexto, os crentes davam certo ...

 

 Quando os crentes davam certo (2)

 

"Foram desleais e infiéis com os seus antepassados...” (Sl. 78.57).

    Os crentes davam certo porque eles eram crentes. Ou seja, chegavam à igreja no meio de todas as dificuldades, porque eram confrontados com uma clara mensagem evangelística, por meio da pregação, dos testemunhos e dos hinos. Não havia crentes por tradição, nem por adesão, mas apenas por conversão. Todos os evangélicos conheciam o "Plano de Salvação", pois haviam sido expostos ao mesmo, e respondido ao mesmo. Agora, se esperava que passassem a compartilhá-la com os outros. A tônica era a conversão, o novo nascimento, a mudança, a transformação, a certeza da vida eterna, o confessar a Jesus Cristo "como único Senhor e Salvador", que culminava com o rito de "profissão de fé" ou "Confirmação", de forma pública.

No culto, eram comuns os apelos para que as pessoas "aceitassem a Cristo", ou que "se entregassem á Cristo", levantando a mão, ou vindo à frente. Igrejas organizavam semanas, cruzadas ou campanhas evangelísticas, geralmente com um orador convidado, e toda uma preparação e divulgação, com distribuição de convites e folhetos evangelísticos. Nos cultos, com freqüência, se incluía o testemunho de conversão de um irmão ou de uma irmã, sempre na tônica:

"Eu era assim, Cristo me tornou assim".

    Como todos os crentes conheciam o Plano de Salvação e se esperava que compartilhasse com os outros, toda a Igreja era uma Igreja de evangelistas. As famílias crentes eram estimuladas, ao final do dia, a celebrar em torno da mesa da última refeição, o seu "culto doméstico", dirigido pelo pai da família. Convidavam-se parentes e vizinhos. Se alguém se mudava para outra cidade, o culto doméstico e cultos evangelísticos nos lares, de iniciativa dos próprios leigos (como expressão do sacerdócio universal de todos os crentes) era o início de muitas novas Igrejas, e “o Senhor ia acrescentando aqueles que eram salvos".

    Com todos passando pela experiência de conversão, conhecendo o Plano de Salvação e se considerando um evangelista, os crentes davam certo...

 

Quando os crentes davam certo (3)

   

    Os crentes eram discriminados e perseguidos. Os crentes eram convertidos e conheciam o Plano de Salvação e... os crentes conheciam a Bíblia. Aliás, depois dos epítetos de "novas-seitas" e "bodes" eles eram conhecidos como "os Bíblias", "Fulano é um Bíblia". Isso porque assim que alguém se convertia, a primeira coisa que fazia era comprar uma Bíblia.

    O Brasil era um país de uma imensa maioria de analfabetos, e raríssimos católicos romanos possuíam uma Bíblia (que eram caras). As edições protestantes, que começaram. a chegar regularmente ao Brasil há exatos duzentos anos, com a vinda da Família Real, era a da tradução de João Ferreira de Almeida, e de capa preta. Como ninguém tinha automóvel, lá iam heróicos e orgulhosos, os homens de paletó e as mulheres bem vestidas, com sua reluzente Bíblia de capa preta debaixo do braço, sob os olhares e os murmúrios de censura dos que os viam passar.

Gente que não sabia ler levava a Bíblia, assim mesmo, como símbolo, e procuravam aprender a ler, para poder ler a Bíblia. Os novos convertidos eram submetidos, imediatamente, a um curso intensivo sobre as Sagradas Escrituras, aprendendo a distinguir Antigo de Novo Testamento, capítulo de versículo, e livro histórico de livro poético, além de memorizar versículos considerados importantes para o evangelismo e para a santidade. Nos cultos de estudos bíblicos, havia uma espécie de "gincana", para ver quem achava determinado versículo primeiro.

    As edições protestantes da Bíblia eram queimadas em praça pública por beatos enfurecidos, estimulados por sacerdotes radicais. Tais Bíblias eram consideradas "falsas", e muita gente se converteu por comprá-las por mera curiosidade. Houve casos de que os chamados "colportores" (vendedores itinerantes de Bíblias) que se adentravam no interior do país montados em mulas, deixavam uma Bíblia em um povoado, vila ou cidade, e, regressando um ou dois anos depois, encontravam uma Igreja funcionando, sem qualquer vínculo com organizações, fruto da mera leitura do texto sagrado.

    Quando se cantava "Minha Bíblia, meu prazer, meu tesouro quero ter" ou "Enquanto Salvador teu Livro eu ler, meus olhos vem abrir, pois quero ver", os crentes davam certo...

 

Quando os crentes davam certo (4)

   

    O que acontecia, então, quando uma pessoa se convertia? Pegava-se "no laço" e a fazia membro da Igreja no dia seguinte? Longe disso. Existiam as classes especiais de estudo, denominadas de "Classes de Novos Convertidos", ou "Classes de Catecúmenos", com uma duração mínima de seis meses, de presença obrigatória para os novos crentes. Ali eles estudavam o Plano de Salvação; as Sagradas Escrituras, as Doutrinas Básicas da Fé Cristã; Ética e Características da Denominação (inclusive o compromisso de contribuir com o dízimo), enquanto eram observadas em seu novo comportamento.

    Somente depois desse período eram examinados por conselhos, comissões ou assembléias (conforme a prática denominacional) e eram batizadas e/ou faziam a Pública Profissão de Fé/Confirmação, um rito de suma importância para a nova criatura, que se tomava membro pleno da nova comunidade de fé.

    Nada de pressa, nada de superficialidade, nada de preocupação com números. O resultado era a estabilidade, as pessoas ficavam na Igreja, não havia “rotatividade”. Depois de confesso, o novo crente se tornava aluno regular das classes da Escola Bíblica Dominical, onde estudaria as Escrituras para o resto de sua vida. As “uniões de treinamento” (homens, mulheres, jovens) também tinham a sua literatura, e faziam a sua parte na educação continuada dos crentes. Estes eram estimulados á leitura devocional diária da Bíblia, e a livros evangélicos, além de assinarem os jornais oficiais de suas denominações (“O Cristão”, dos congregacionais; “O Jornal Batista”; “O Brasil Presbiteriano”; “O Estandarte”, Episcopal etc.), para se manter informado sobre o que acontecia em seus arraiais.

    No campo de apologética, havia palestras e textos que ensinavam como diferenciar o Protestantismo do Catolicismo Romano, ou as diferenças entre os diversos ramos do Protestantismo. Isso requeria alta escolaridade (algo muito raro na época), mas era usual para o crente mais simples. Com um lastro de conhecimento desses os crentes davam certo...

 

 (5) Quando os crentes davam certo (5)

   

    Naquele tempo o cenário religioso brasileiro era mais claro e menos “plural”; havia diversas expressões do catolicismo romano (mais de 90% da população), o espiritismo kardecista e os cultos afro-brasileiros (chamados em conjunto de “macumba”), além d um ou outro “livre-pensador” ou seguidor do Positivismo de Augusto Comte. Os protestantes de migração (luteranos alemães na zona rural, anglicanos britânicos nos centros urbanos) já estavam aqui desde a Regência, mas “não ofendiam ninguém”, pois não evangelizavam brasileiros. Aí, na segunda metade do século XIX chegaram as Igrejas históricas de missão (congregacionais, presbiterianos, batistas, metodistas e anglicano-episcopais), que foram os únicos entre 1855-1909.

    Diante de adversários em comum, e a partir de uma base de crenças em comum (todos eram evangélicos) se criou a consciência de se pertencer a um mesmo “povo”: todos eram evangélicos ou “crentes”, antes de serem batistas ou presbiterianos. Rivalidade sempre houve, mas em um nível menor. Todos se sentiam um. Depois do Congresso do Panamá, de 1916, se promoveu a produção conjunta de material para a Escola Bíblica Dominical, e, entre 1934-1964, a Confederação Evangélica Brasileira (CEB) aglutinava os protestantes, promovia eventos, imprimia textos, e, tanto o “Dia da Bíblia” (segundo domingo de dezembro) como o “Dia da Reforma” (31 de outubro) eram nossos “feriados protestantes”, comemorados por todos.  

    Havia um respeito e uma ética nos relacionamentos, e não uma competição selvagem. Instituições unificadas como "cemitérios protestantes" ou "hospitais evangélicos" eram demonstrações do esforço de todos.

    O importante é que todos consideravam o outro como um "salvo", um "evangélico", um "crente", um dos nossos. Havia um "orgulho santo", meio judaico, de pertencermos todos ao Israel de Deus, ao Povo da Nova Aliança, além do fato de que todos eram igualmente discriminados e chamados de "bodes". Quando os "bodes" eram unidos, os crentes davam certo...

 

Quando os crentes davam certo (6)

   

    Os crentes, desde o início, formavam um povo que cantava. Dona Sarah Kalley, esposa do primeiro missionário congregacional, o pastor e médico escocês Robert R. Kalley, além de criar a primeira Escola Bíblica Dominical, em Petrópolis, foi a grande responsável pela primeira compilação de cânticos evangélicos, denominada de "Salmos e Hinos", usado por gerações e matriz de quase todos os cancioneiros protestantes do País,

    Muitos hinos, com uma densidade de mensagem em sua letra, foram traduções da época da reforma, do pietismo, dos avivamentos, do movimento missionário, e, muitos foram compostos por autores brasileiros (Hinário Evangélico, Cantor Cristão, Harpa Cristã, e tantos outros). Havia hino para cada tema (fé, amor, arrependimento, conversão, santidade) e para cada ocasião (natal, páscoa, dia da reforma, funerais), o que reforçava a mensagem, adequados aos sermões. Canto de alegria, canto de quebrantamento, canto de apelo evangelístico, de forma congregacional, de corais ou de solos.

    Muita gente foi tocada e se converteu pela via da música. Ainda estão vivos dois dos grandes pioneiros das gravações de hinos, os cantores Feliciano Amaral e Luiz de Carvalho. No rádio, os dois primeiros programas foram "A Voz da Cruz", da Igreja Luterana (IELB) com o Reverendo Rodolfo Hasse, tendo como fundo o hino "Castelo Forte", e "A Voz da Profecia" da Igreja Adventista, com o Pastor Roberto Rabelo e o Quarteto Harmonia, com o hino "Servos de Deus a Trombeta Tocai: Jesus em Breve Virá".

    O piano, o órgão e o violino foram os primeiros instrumentos. Cada crente tinha seu(s) hino(s) favorito(s). As pessoas ficavam impressionadas com hinos cantados em funerais. Como um povo que cantava sempre, com muita convicção, com harmonia melódica, e com letras com conteúdo (que você entendia quando cantada), os crentes tinham que dar certo...

 

Quando os crentes davam certo (7)

   

    Olhando as fotografias das primeiras Igrejas protestantes de missão no Brasil, se percebe uma maioria de homens. Era uma sociedade ainda patriarcal, de homens mais letrados e com mais tempo livre. Em situações de mudanças religiosas, há uma tendência de maior resistência por parte das mulheres. Por outro lado, os desdobramentos da ética protestante da santidade no mundo, pela ascese, o trabalho e a poupança teve um impacto dos mais significativos em um país escravocrata e aristocrata.

    O alcoolismo, o tabagismo, a jogatina, as farras, os prostíbulos, a vida boêmia, onde se gastava o dinheiro e a saúde (da cirrose às, então, denominadas "doenças venéreas"), e se abalavam as relações familiares, eram deixadas para trás como algo "mundano", "da carne", "de satanás".

A nova religião ensinava o valor do estudo, do trabalho (inclusive o manual), os gastos responsáveis, a atenção à esposa e aos filhos, para que todos aderissem à mesma fé e fossem juntos para a Igreja (“eu e minha casa serviremos ao Senhor"), os cultos domésticos (inclusive evangelísticos).

    O resultado, em nosso País, com as Igrejas históricas de missão, bem comprovou a tese de Max Weber. Houve uma mobilidade social, com cada geração sucessiva apresentando melhores níveis de escolaridade e classe social mais alta (inclusive com a ajuda das bolsas de estudo dos colégios protestantes). Reduzia-se a violência doméstica, com famílias mais ajustadas, maior dignidade da mulher, mantendo-se a liderança do homem.

    Dentro das organizações internas das Igrejas as pessoas perdiam a timidez, e desenvolviam o associativismo e o espírito de liderança. Essa ética favoreceu o surgimento da nova classe média e de uma classe trabalhadora qualificada, em um Brasil que se urbanizava.

    A presença do protestantismo, pois, foi positivo para a família, para a saúde pública e para a economia. Era visível a diferença trazida por um Evangelho pessoal. Com mudanças existenciais como essa, os crentes davam certo.

 

Quando os crentes davam certo  (8)

   

    Chegando ao Brasil, depois da expulsão da Ilha da Madeira, o Dr. Robert R. Kalley, pioneiro do congregacionalismo, teve diálogos religiosos com o Imperador Pedro II e membros da Corte, vindo a converter algumas damas.

    Ashbell G. Simonton, o pioneiro do presbiterianismo, ao fundar o jornal “Imprensa Evangélica”, não o via como um órgão de circulação interna entre os protestantes, mas o queria á venda nas livrarias seculares, como uma visão cristã para o mundo.

    Quando o primeiro “Clube Republicano” (embrião do futuro Partido Republicano) foi fundado por Quintino Bocaiúva e Rangel Prestana, dos oito membros dois eram protestantes, os irmãos maranhenses Vieira Ferreira.

    A primeira Igreja protestante de fala portuguesa em nosso País, a Igreja Evangélica Fluminense, no Rio de Janeiro, por seus estatutos, somente permitia a filiação de senhores de escravos, se os mesmos os libertassem.

    O Colégio Gammon, de Lavras, Minas Gerais, tem no pórtico de sua capela o dístico: “Dedicado a glória de Deus e ao Progresso Humano”. Esses colégios que introduziram a educação mista, a educação física, a educação tecnológica e esportes como o voleibol e basquetebol, estavam movidos de uma mesma visão que marcou as primeiras décadas do protestantismo no Brasil, em um tempo em que o pós-milenismo e o a-mlenismo eram as correntes escatológicas hegemônicas.

    Essa visão de um protestantismo participante e procurando influenciar também estava na fundação da Liga Eleitoral Evangélica, para as constituintes de 1934 e 1946. Se antes fora a abolição e a República, o Estado Laico, agora entravam temas como a defesa do divórcio e da reforma agrária.

    Quem se lembra do primeiro Governador de Estado (interino) do Brasil, o líder operário tecelão e pentecostal da Assembléia de Deus, o deputado estadual Torres de Galvão, no Pernambuco dos anos 1950, ou o primeiro assessor evangélico (com status de subsecretário de Estado), o pastor batista Viana Paiva, na primeira gestão de Miguel Arraes, nos anos 1960?

    Quem se lembra d militância de batistas e pentecostais no nascente sindicalismo rural no Nordeste, no final dos anos 1950, ou do documento final da “Conferência do Nordeste”, promovido pela Confederação Evangélica Brasileira (CEB) no Colégio Presbiteriano Agnes Erskine, no Recife, sob o lema “Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”, ou o manifesto da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, de Vitória, ES, de 1963?

    Em um tempo em que não havia a heresia “crente não se mete em política”, nem o corporativismo maroto do “irmão vota em irmão”, os crentes davam certo...

 

Quando os crentes davam certo (9)

   

    Os colégios protestantes e algumas de suas Igrejas organizavam “sociedades literárias”, onde se debatia obras da literatura brasileira, e onde se estimulavam a produção de contos, poesias e outros gêneros, pelos crentes locais. Havia uma preocupação em conhecer o vernáculo, os crentes eram estimulados a bem falar e escrever o português, bem como o terem a disciplina da leitura, visando uma elevação cultural.

    Líderes com envergadura intelectual existiram desde o começo, não só entre os missionários, mas entre as primeiras gerações de brasileiros. Um fato curioso é que o primeiro pastor batista, Pr Teixeira e o primeiro pastor presbiteriano, Ver. José Manoel da Conceição eram ex-padres católicos romanos.

    Álvaro Reis, Erasmo Braga, Eduardo Carlos Pereira, Miguel Rizzo, Benjamim de \Morais Filho, no sudeste; Jerônimo Gueiros e Natanael Cortez, no nordeste, dentre tantos nomes por esse Brasil afora que honraram as letras. Isso se refletia no respeito que a sociedade em geral nutria pelos mesmos, na influência cultural do protestantismo, e no nível do nosso púlpito (em conteúdo, forma e comunicação).

    Quantas vezes fui (ainda estudante universitário) para a Igreja Batista da Capunga ouvir o Pr Munguba Sobrinho, denominado de “o príncipe dos pregadores batistas”?          

    Os colégios, por seus Grêmios Estudantis, organizavam concursos de oratória. Os Seminários Teológicos “puxavam” pela homilética, quando o “sermão de prova” era um terror para os alunos... Por muitos anos era costume incluir nos cultos a declamação de uma poesia, por pessoas dotadas desse dom de comunicação. Mário Barreto França, Myrtes Mathias e Gióia Júnior estavam entre os poemas favoritos daquelas gerações.

    Nos tempos em que a superficialidade pegava mal, e dizer abobrinhas queimava o filme do freguês, mas bem se lia, se escrevia e se falava; os crentes bem que davam certo...

 

FINAL

  

    Minha aproximação com o protestantismo histórico de missão se deu entre 1958 e 1962, quando o congregacionalismo acabava de completar cem anos (1955) e o presbiterianismo se preparava para comemorar o seu centenário (1959). Neste último caso, tivemos um momento histórico e simbólico: no Culto de Ação de Graças, na Catedral Presbiteriana, da Rua Silva Jardim, Rio de Janeiro, RJ, um presidente da República, no exercício do cargo, comparece a um ato dessa natureza: o presidente Kubistcheck (JK), com a mais ampla repercussão. No ano seguinte (1960) o estádio do Maracanã se enche pela segunda vez (a outra fora na Copa de 1950) para o encerramento da assembléia da Aliança Batista Mundial, tendo como pregador o evangelista Billy Graham.

    Fui de uma geração que conviveu com muitos homens e mulheres de Deus, dos mais simples aos mais eruditos, com histórias de vida e memórias que eu, um adolescente, bebia como ensinamentos existenciais. Se já tenho meio século dos mais velhos, que por sua vez tinham ouvido dos seus mestres o meio século anterior.

Preocupa-me o desconhecimento histórico da presente geração, em relação à História Geral da Igreja, particularmente a Reforma Protestante, e em relação ao passado do protestantismo brasileiro.

    O futuro está no passado, porque o presente é por demais preocupante! Nessa série procurei resgatar alguns feitos e alguns heróis da fé dessa saga, dessa epopéia, que foi a implantação do protestantismo em nosso País, sob as circunstâncias mais adversas. Há um legado perdido; há lições a serem resgatadas.

    Concentrei-me no protestantismo histórico de missão, sem desmerecer a presença (mesmo que isolada do protestantismo de migração), hegemônico de 1855 á 1965. O Pentecostalismo chega em 1909. Depois aparece por aqui o Liberalismo, o Fundamentalismo, o Neo/Póspentecostalismo e por aí a fora. Mas, deixarei para comentar em outra série, que intitularei: "Quando os Crentes às vezes, ainda dão certo".

 

    Que o Senhor nos abençoe!

 

 

Robson Cavalcanti, bispo anglicano.