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domingo, 22 de setembro de 2013

Modernidade Líquida, de Z. Bauman - resenha, por Marcelo GEsta




LIVRO MODERNIDADE LÍQUIDA
resenha, por MArcelo GEsta


    De forma bastante original Z. Bauman, para expor suas idéias, usa a metáfora da fluidez do líquido em contraposição a não maleabilidade do sólido, uma vez que o líquido não se priva de alterações e adaptabilidades constantes diante dos obstáculos á sua frente, ao passo que o sólido priva-se da evolução constante em virtude de seu peso, formato e espaço ocupado.

    Identificado com as tradições e resíduos do passado o sólido possui uma resistenciabilidade que o torna facilmente obsoleto, enquanto que o líquido é identificado á tudo que aponta para o futuro, o novo e a tudo o que possa ser compulsivamente aprimorado. Assim sendo, vê-se a modernidade líquida como a tarefa de derreterem-se os sólidos antigos para criar a relativização e o entrelaçamento entre os interesses individuais e os coletivos.

    Paradoxalmente, a perspectiva de “fluidez” vem da idéia de emancipação, de libertar-se de uma sociedade causadora de obstáculos, e que dificulta e resiste a qualquer transformação ou criatividade. Contudo, a liberdade dos libertários mostra-se utópica e míope, uma vez que a maioria das pessoas teme, subjetivamente, uma liberdade que os levaria a serem responsáveis por sua própria sobrevivência e existência e, assim, é mais fácil aceitar-se o conceito de dependência libertadora, onde a anomia é vista como um fantasma que incapacitaria a “sociedade dos indivíduos”. A rotina que apequena é também a que protege.

    A insatisfação com “o que aí está” coloca nossa sociedade de “indivíduos livres” diante de uma liberdade e uma impotência sem precedentes. A sua casual crítica ás condições da modernidade sólida é incapaz de afetar o curso da modernidade líquida, que embora também receba as críticas não as assimila, uma vez que os novos medos da fluidez sempre estão mudando de domicílio.

    A consumação de nossa satisfação e objetividade na modernidade líquida é sempre vista no futuro e, este quando potencialmente alcançado logo se dilui, pois sempre está á frente de si mesmo, nossa identidade existe como um projeto não-realizado. A fluidez contínua da atual modernidade mostra-se como “um vir á ser constante”, percebemos um futuro que nunca é alcançado, um fim que nunca chega.

    As funções que sobreviveram estão trocando seus papeis e nos pegando desprevenidos, o que era considerado como tarefa “da e para” a humanidade, hoje é visto como atribuição e responsabilidade dos indivíduos e seus recursos. O sistema político diminui sua paternalidade não oferecendo, como antes, a solução, a segurança e a esperança, pois agora o indivíduo é que deve assumir a condução de sua própria vida, buscando os insumos para isso dentro de si mesmo.

    A antiga idéia e performance de cidadão, ou seja, aquele que se moldava e acomodava-se á um grupo ou modelo de conduta, com o intuito de buscar a ação coletiva para compensar sua fraqueza individual, é substituída pela individualização. A modernidade líquida dilui os lugares de conforto e as paradas para a reacomodação, nela não há descanso nem destino final, a coletividade, a afinidade e a intimidade não encontram um endereço, elas se esvaem sobrando apenas o indivíduo só, em um mundo sempre mutante. Assim, as problemáticas individuais não se alinham em uma ação conjunta, pois não há a causa comum, há somente a insatisfação em todos. A contraposição do indivíduo contra o cidadão leva a desintegração da cidadania e á colonização do público pelo privado.

    O espaço público se vê cada vez mais vazio de questões públicas em virtude de uma, também utópica, individualização que é vista de forma ambígua pela sociedade dos cidadãos em busca do interesse comum. Na tentativa de repovoar-se a “agora pública” os indivíduos em busca de seus interesses pessoais, mais uma vez têm que ser vistos como membros de uma sociedade falida que pouco tem a lhes oferecer.

    O assalto da modernidade líquida á modernidade sólida mostra que quanto menos claro for um pensamento, tanto mais claro ele está para a atual humanidade, e quanto menos for avaliado e justificado maior será visto seu “valor humanizante”. Assim, todo pensamento pessoal que pretende ser universalizado é visto com rejeição, pois qualquer verdade pessoal imposta, agora, só gera novos campos de batalha, e para que haja entendimento, diante de toda esta pluralidade imposta, faz-se necessário voltar aos salões da política. Todavia, o Estado atual não pretende mais fornecer, inteiramente, os “insumos básicos” para a sociedade exercer seu papel homogeneamente, pois a cada dia ele abre-se á emancipação de indivíduos que não sabem ao certo o que fazer com sua própria auto-afirmação.

    Um dos grandes ícones da modernidade sólida foi à fábrica da Ford. Inspiradora do “mundo fordista”, marcado pela produção em série, pragmática, repetitiva e sem criatividade, o fordismo era obcecado pelo volume, pela aquisição, pelo excesso de trabalho e pouca ou nenhuma qualidade de vida. O fordismo em seu apogeu inspirou uma ordem monótona, regular, previsível e sem inovação, o que levou a pensar-se em um futuro onde qualquer tipo de escolha ou individualidade com tempo seria extintos. Começar a trabalhar em uma instituição de estilo fordista era sinônimo de mau pagamento e que se terminaria a carreira profissional no mesmo lugar que se iniciou. A busca pelo rompimento com esta estrutura foi o que marcou a decadência e a extinção acelerada do modelo fordista.

    Contrapondo-se ao modelo fordista, surge um novo ícone ligado ao modelo fluído e leve do novo capitalismo, a Microsoft. A Microsoft apresenta uma mentalidade totalmente diferente, onde o capital e a empresa são quase virtuais, podem ser transportados na bagagem de mão, não se submete a territorialidade, ao espaço, ao tempo, e a liberdade, a criatividade, o improviso e a adaptabilidade são seus grandes trunfos. Quem começa uma carreira na Microsoft não sabe aonde vai parar.

    A modernidade sólida deixou um vazio com seu término, que se mostra através de um número enorme e crescente de oportunidades que não param de surgir. As instituições paternais e castradoras que condicionavam e moldavam o comportamento da sociedade, protegendo-a de perigos e desacertos, se extinguiram. Agora, os indivíduos têm diante de si uma ditadura das possibilidades, cada um deve assumir suas competências e riscos. Seu grande problema agora se encontra não na falta da emancipação, mas no excesso de escolhas que deve tomar rapidamente num mundo mutável e evoluível.

    A nova forma de modernidade traz consigo um novo modelo de administração onde o “líder”, ou todos aqueles que ditavam, projetavam, zelavam e supervisionavam o cumprimento das leis são substituídos pelo performático consultor. O consultor ao invés de ser seguido, pode ser contratado e demitido, ele “vende um produto” que ajudará os indivíduos em sua nova tarefa de dia á dia estarem se superando, daí surgindo à busca obsessiva pelo sucesso. Não demorou muito para ligar-se o sucesso á aquilo que poderia ser comprado e consumido em quantidades cada vez maiores, e o consumismo torna-se um vício ligado à auto-expressão e padrão de status.

    O consumismo ultrapassou a idéia de necessidade e valorizou o conceito do desejo, muito mais “fluído e expansível”, em sua dinâmica hedonista, agora um outro estimulante, mais poderoso e versátil, tomou o lugar do desejo, “o querer”. O querer suplanta a comparação, a vaidade e a inveja, ele é imediato e espontâneo, não é necessário o desejo e a necessidade, ele é puramente insincero e infantil, é a satisfação do ego.

    A exacerbação do consumo passa a moldar uma sociedade que se orienta pela sedução a idéias voláteis e crescentes por novos desejos, mas para se alcançar o máximo que a vida tem á oferecer é preciso viver mais e melhor, o corpo deve estar apto e disponível para todas as oportunidades á frente. A ideologia da aptidão refere-se a capacidade de adaptar-se flexivelmente a qualquer circunstância inesperada, a aptidão é vista como uma propensão á emancipação.

    O mundo da modernidade líquida, de tão fluido e mutante que é, com todas as suas ofertas, possibilidades e desafios, indo e vindo constantemente, não permite que as pessoas possuam seu próprio mundo e suas vidas plenamente. Achamos que somente alguns conseguem alcançar o que querem e nós mesmos algumas vezes nos espelhamos nestes exemplos que não passam de ilusão, quando descobrimos que nem eles estão satisfeitos com o alcançado, e, assim, a menos utópica de todas as aquisições passa á ser a própria identidade.

    Quando se busca a própria identidade estamos dizendo com isso que queremos algo familiar, algo que traga o passado ao presente e, juntos, parem o tempo e a metamorfose. A identidade é como um “espaço quântico” onde o universo giraria em torno de nós mesmos. Pura ilusão, uma vez que, para nos identificarmos com a sociedade, abdicamos de algo de nós mesmos e assimilamos inúmeros estímulos criados pela mídia, estímulos esses uniformes e homogeneizantes (chamados de moda) que nos faz mais parecidos com todos, e mais uma vez a identidade trai á si mesma passando a formar outra vez algo idêntico. A modernidade líquida prima pela flexibilidade, mutação e ajuste constante da identidade pessoal, o que sempre á torna um “vir á ser”.

    O conjunto de toda pluralidade existente, somada ao aparecimento de novas possibilidades e a necessidade de ajustes constantes faz com que a mutabilidade das identidades crie novas formas de relacionamentos com outras identidades que também estão sempre mudando. Assim, as parcerias humanas passam á ter aspecto e mercantilização e consumo, pois neste mundo onde tudo tem o “momento da moda” e prazo de validade, as relações humanas também são fúteis, efêmeras, egocêntricas e não solidificadoras de famílias estáveis, amores genuínos e amizades sem interesses.

    A comunidade, última relíquia da modernidade sólida, passa á ser vista como aglutinador de segurança, descanso e intimidade. A comunidade é vista como uma ilha de familiaridade, com outros indivíduos, em meio á uma sociedade urbana que afasta as pessoas do convívio pessoal e estável. Dentro da comunidade as pessoas têm a sensação, ainda que breve, de “calor”, algo não oferecido nos espaços públicos que, apesar de aglutinarem pessoas com interesses comuns, não promovem a interação social. O lugar chamado comunidade possui um fim em si mesmo para aqueles que buscam a estabilidade de suas identidades diferentemente de outros lugares que são vistos como meios, tais como: lugares públicos êmicos, os espaços vazios, os lugares fágicos e os não lugares, todos altamente “desidentificadores”.

    Esta nova e plural civilidade não está criando apenas heterogeneidade, cria também as comunidades étnicas onde o contato recíproco com outras comunidades significa, no máximo, estar provisoriamente no meio de outros e não com os outros. A idéia de insegurança é exacerbada tornando a “comunidade” em “um espaço defensável” onde só fazem parte dele que possui a mesma identidade e interesse, seja ele econômico, étnico, profissional, religioso etc.

    A nova modernidade também contribui para o enfraquecimento das próprias relações humanas que forma, pois ao contrario da modernidade passada, que via na aquisição, no acúmulo e no volume um padrão de riqueza baseado no fordismo (que era estático e monótono), a nova modernidade é obcecada pela fusão de empresas, pelos cortes e renovação de mão de obra, pela redução de tamanho e pela globalização e extraterritorialidade do capital. Assim como as empresas estão sempre mudando e, algumas vezes, até se mudando, o mesmo acontece com as relações humanas e trabalhistas. A fluidez exacerba a instantaneidade, tudo é fugaz, o “longo prazo de validade” não agrega mais valor, pois impossibilitaria um novo consumo, os “objetos duráveis” tornam-se obsoletos rapidamente, a transitoriedade é algo imposto, muitas vezes, até ás relações pessoais dentro das comunidades e das empresas.  

    O progresso foi algo que marcou a modernidade pesada no final do século XIX. O veículo usado para “se ir para frente” era o trabalho da coletividade, visto como a fonte da criação do futuro, e o Estado era aquele que organizava, legitimava, defendia e dirigia a força trabalhadora de forma paternal garantindo uma segurança e uma esperança vista no amanhã. Na atual modernidade ou “capitalismo leve” o trabalho ou missão de melhorar o futuro é visto como algo utópico voltando todas as responsabilidades para o indivíduo, que terá sempre diante de si o desafio perpétuo de conduzir sua própria emancipação, num mundo onde trabalhar não é mais uma condição ética, mas, sim, uma forma estética de se conseguir tudo o que se quer por meio de si mesmo.             

    A individualização deste capitalismo leve coíbe e destrói os interesses comuns nas relações trabalhistas minando a militância e a participação política. O mercado vê como boa às relações de trabalho que sejam menos sólidas e mais fluidas possíveis. O habitante da modernidade contemporânea vive diariamente uma peregrinação enxergando em seu emprego a sua sobrevivência, que sucumbe á cada dia por causa daquilo que ele mesmo criou, ou seja, a modernidade líquida.

    Em reação à acelerada “liquefação” desta vida moderna surge o comunitarismo como resposta ao crescente desequilíbrio entre liberdade e garantias individuais, e como meio de unir força para reivindicar interesses coincidentes, em um mundo que á todos leva á laços fúteis e efêmeros. O abrigo comunitário é formado por indivíduos que possuem os mesmos medos. Todavia diante do pluralismo da sociedade moderna é que se aprendem as vantagens do diálogo, da negociação e da conciliação de interesses diversos, que por sua vez multiplicam oportunidades, agregam valores e ampliam os horizontes da humanidade.

    O “abrigo comunitário” defendido pelo Estado, que promovia sua segurança e estabilidade, se vê mais uma vez ameaçado pelas relações econômicas extraterritorias e globalizadas, promovidas pela Nação (encarregada, antes, de promover a homogeneidade entre as comunidades de um mesmo território) que ultrapassa suas fronteiras, sejam elas quais forem, em busca de um mundo ideal, multinacional e formado por instituições transnacionais, que á propiciem os melhores lucros e emancipações possíveis.

    Assim é o momento da modernidade líquida: fugaz, efêmero, fútil, individualizado, frio, descompromissado, urgente, míope, compulsivo e infeliz. A modernidade líquida é uma viagem que não chega á lugar algum, é um “vir á ser” constante, é a “descoberta que o piloto sumiu”, é o faça você mesmo e não se prenda á ninguém, é “coisificação das utopias” e a “utopialização dos ideais”. Modernidade líquida é uma viajem nem para perto nem para longe, é, apenas, deixar-se embarcar em uma carruagem que relativisa o espaço através de um tempo fragmentado pela velocidade, que não deixa ninguém descansar nem fugir dela própria.

- “Meu desejo de consumo hoje é: tirar férias para poder provar um pouquinho de modernidade sólida, num dia chuvoso, ouvindo flash-back e vendo filmes e desenhos “cult” na “underground” sessão da tarde, tomando ovomaltine e comendo bolinhos de chuva. Morou essa bicho”?

POr Marcelo Gesta Palmarês Martins.