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sábado, 2 de novembro de 2013

RELIGIÃO, ÉTICA E MORAL como formadores das relações pessoais


RELIGIÃO, ÉTICA E MORAL
como formadores das relações sociais
Por Marcelo Gesta

RESUMO

Independente de nossa individualidade ou de nosso “cada-um”, vivemos convivendo, e na interação que todos têm nesta imensa “engrenagem” que é o ou os ambientes a nossa volta, “absorvemos resquícios” de outros, bem como “somos absorvidos” por outros “cada-uns” ou individualidades, e apesar de tanta variedade e dessemelhança ao nosso redor, notamos que há um equilíbrio nas relações humanas saudáveis que não vêm por acaso, mas em virtude das construções proporcionadas pela religião, pela ética e pela moral.

INTRODUÇÃO

“Não há valor estritamente individual: os juízos de valor são sempre coletivos” (Mentré).

 “Cada-um” tem o seu “cada-um” – nosso “cada-um” forma a nossa individualidade e é a nossa individualidade. Toda individualidade é uma existência, visto não haver existência sem individualidade, ou seja, aquele que é aquele não é aquele outro, ser indivíduo é ser singular, único, porém, esta individualidade mesma, pouca coisa tem de inata, mas muito de empírica, pois nosso “cada-um” é a somatória de tudo o que:

a)      Aprendemos a ser e somos;
b)      Aprendemos a pensar e pensamos;
c)      Aprendemos a agir e a interagir e, assim, agimos e interagimos.

Então, considerando-se que toda existência o é, percebe-se também que o ser, o indivíduo sempre encontra-se em algum tipo de meio ambiente, seu ou não, pois não se existe fora de ambiente algum, nada nem ninguém está só ou isolada completamente, ser é também interagir com algo ou alguém que não é si próprio. Percebemos, destarte, que vivemos convivendo. Apreendemos que ninguém é neutro ou independente do que a sua volta ocorre, pois vivemos dentro de uma simbiose que envolve inclusive seres vivos de outras espécies.
Embora falemos o que pensamos, e pensemos e agimos em virtude daquilo que somos, este existir e ser de uma forma específica ou este nosso “cada-um” exclusivo não nasce formado, pronto, uma vez que ele é cultivado ou forjado no dia a dia, nossa individualidade é apreendida e aprendida, principalmente de acordo com o ambiente no qual existimos. Deste modo, o “cada-um” de todo indivíduo é a somatória de outros “cada-uns” de diversas outras pessoas que convivendo diariamente, umas com as outras, “puderam absorver” o “cada-um”, umas das outras, que por sua vez foram “absorvidos de outras” e, anteriormente, de outras, e assim sucessivamente, formando dessa forma inúmeros outros “cada-uns” ou individualidades, pois a individualidade é formada, também, pelas individualidades de outros. Logo, é de comum acordo que todos nós que vivemos em comunidade ou em civilização, fomos, estamos sendo e seremos desenvolvidos e cultivados no dia a dia, também pelas individualidades de inúmeras outras pessoas que, por sua vez, possuem seu próprio “cada-um” formado e cultivado, também, pelo teu “cada-um”, pela tua individualidade.
A individualidade de cada um, por sua vez, faz parte de uma ou “várias engrenagens”, e considerando-se que toda engrenagem trata-se de um anexo, e que a mesma funciona objetivamente, e em conjunto, com um propósito definido e dependente de toda uma estrutura, pois caso contrário não seria uma engrenagem, e sabendo-se que a mesma não existe somente em função de si própria e por si própria, porém em função de uma somatória de necessidades suas e de outros, e que muitas das partes da “imensa engrenagem” possui individualidade e subjetividade, e que, todavia, apesar de tamanha interação que temos com o entorno ambiental, estas “engrenagens”, muitas vezes, são formadas de outras individualidades e/ou indivíduos, e ainda sim, nunca se descobrirá um ser humano igual a outro. Portanto, facilmente encontrar-se-á divergências de opiniões e propósitos, e, assim sendo, conclui-se que necessário se faz haver algo ou alguém que ordene e comande tais relações e interconecções.
Tudo e todos se dependem e/ou se encaixam mutuamente, em maior ou menor proporção, tal qual em uma engrenagem. Se assim o é realmente, basta que uma “pequena peça da engrenagem” funcione mal ou não esteja ajustada de acordo com a realidade do “resto da engrenagem” para que surjam “atritos” e problemas. Assim, alcançamos que nesta simbiótica relação de dar e receber, onde sempre eu, ou alguém, ou alguns, ou todos, há a existência de algo ou alguém que coordene ou administre tais interações, pois do contrário não durariam muito tempo e nem mesmo se estabeleceriam e se consolidariam. É aí que entra a relevância da Religião, da Ética e da Moral.
Percebemos, também aí, que todo arbitrar é dependente de outros arbítrios, e que nenhum arbítrio é incomum, independente, único e inédito, visto seu motivo (o que leva a escolher) não vir de si mesmo, mas de outra coisa, não importando que esta origem seja interna ou externa a si mesmo. Portanto, os arbítrios estão a serviço de outros estímulos “independentes” do mesmo, assim como outros estão a serviço do teu, logo, os arbítrios são servo-arbítrios de outros arbítrios. Ou seja, têm a individualidade de escolher por si próprio, porém, como as escolhas, são efeito de algo causado. A individualidade destes impulsos arbitrários se percebe na vontade, pois quando tenho vontade existo: tenho vontade, logo, existo. Meu ser e/ou minha individualidade é impulsionada por vários estímulos, porém, temos nossa própria vontade que nos leva à tomarmos decisões, algumas muitas vezes que não queremos tomar, ou simplesmente “ficamos apenas na vontade”, de fazermos escolhas ou tomarmos decisões.

Para se viver e até sobreviver, “sozinho” e/ou acompanhado, necessário se faz assumir escolhas – a própria atitude de não fazer escolhas já é uma escolha – e depois de toda(as) escolha(as) vem as decisões. Escolhemos em função de nossa vontade e, por sua vez, as escolhas são um processo de reflexão que praticamos diariamente nos caminhos da vida: na família, na escola, no trabalho, instituição religiosa etc. Uma vez que sempre estamos em algum tipo de ambiente, ainda que não seja o nosso, as nossas as nossas reflexões e escolhas nunca serão neutras, pois o simples fato de refletir – de acordo com nosso “cada-um” – já traz em si a influência, de onde estivemos, estamos ou estaremos, e de tudo ou de todos os que a nossa volta estiveram, estão ou estarão. Vivemos hodiernamente em uma comunidade global. Assim, sempre sofremos influências de construções reguladoras e/ou adaptadoras – que por sua vez foram também refletidos e escolhidos por outros independentes de nós mesmos – que nos fazem ou farão agir e/ou reagir de acordo com as interações que antes tivemos, que estamos tendo ou teremos futuramente. Concluímos, destarte mais uma vez, que há constituições que mantém o equilíbrio saudável nas relações humanas, e que estas são: a religião, a ética e a moral.
A religião, a ética e a moral – os componentes basilares de toda cultura – dirigem, muitas vezes, não ininterruptamente a nossa vontade, mas sempre, sim, o nosso arbitrar. O nosso arbitrar em sociedade, não é livre das e nas interações que temos, porém, nosso arbitrar não se encontra ausente, concluímos então que nosso arbitrar – nem livre nem ausente – é servo arbítrio, pois arbitramos, não somente em virtude de nós próprios ou daquilo que temos vontade, mas também, a serviço de, e de acordo com. Nem sempre nosso arbitrar esta de acordo com nossa vontade, pois podemos ser induzidos á escolhas que não correspondem a nossa vontade, aliás – é justamente a tríade religião, ética e moral – que leva-nos a fazer escolhas e tomar decisões que sejam mais plausíveis com o ambiente em que vivemos.
Podemos descrever, consequentemente, que dentre tantos mecanismos de formação, ordenação e/ou controle que encontramos nas sociedades, temos na religião, na ética e na moral os principais reguladores das civilizações passadas e das presentes. Em função desta comunidade global, hodiernamente vivemos um sincretismo, não somente religioso, mas também ético e moral – a Declaração dos Direitos Humanos, por exemplo, é para todos os povos, a Declaração Internacional dos Direitos Humanos, querendo-se ou não é universal. Logo, a somatória do que somos, pensamos e agimos é e sempre será influenciada por concepções e convicções prévias que reportam à religião, à ética e à moral de onde estivemos ou estamos.
Mas o que seriam a religião, a ética e a moral como cultivadores das relações sociais? É preciso entender previamente o que queremos dizer com Ética, com Moral e com Religião.

ÉTICA

Ética é a ciência da moral[1]. Etimologicamente vem do grego ethos e significa “morada, casa”, “toca do animal”, ou ainda, morada do ser humano. Desenvolvendo seu significado, podemos descrever, incialmente, ethos como “ambiente”, e que é neste e de acordo com este “ambiente” que o ser humano vai gerando princípios subjetivos e objetivos que venham ordenar “o seu mundo”. Aqui, logo percebemos que “tentar ordenar” “o mundo dos outros”, a partir de conceitos próprios, é antiético, visto cada um ter o seu próprio “cada-um”, e que a somatória de todo os “cada-uns” de uma comunidade específica, formará, por sua vez, “o ‘cada-um’ específico desta mesma comunidade específica, em dessemelhança de outras(s). Assim, vemos ethos também como cultura, ou seja, a influência mútua e a interatividade em seu meio ambiente com seus semelhantes e dessemelhantes, levam o ser humano à reflexões sobre a melhor forma de proceder e comportar-se, afim de que haja ordem entre as diversas formas de interação e convívio da sociedade e em sociedade. Logo, ethos ou ética passa a ser um costume não natural, não inato, mas empírico, pois é forjado, é desenvolvido mediante a repetição de atos específicos, considerados os mais plausíveis. Esta reflexão, escolha e prática sobre os atos mais adequados – e que gerará um hábito regulador – é o que chamamos de ética, que por sua vez, pode variar de cultura para cultura.
O hábito institucionalizado e legalizado é a ética. A ética propõe a existência e prática de um valor que seja universal para toda sociedade, e não para todas as sociedades, um bem que tenha autoridade continuamente, um valor-guia para todos os atos humanos em um ambiente simbiótico que envolve tanto os nossos “semelhantes quanto nossos dessemelhantes”, a fim de que haja harmonia, concordância, paz, prosperidade e felicidade. Todavia, lembrando mais uma vez, o que é padrão ético para uma determinada sociedade pode não ser para outra.
Assim, ética é a reflexão, a conclusão e a legalização sobre as atitudes mais adequadas, que garantirão as corretas relações dentro de uma determinada coletividade, afim de que esta definida sociedade não seja destruída, e dessa forma vão se padronizando valores pelos quais as pessoas passam a entender o que é certo ou errado, para tomar as decisões adequadas. Conclui-se, previamente, que se a ética é uma construção do próprio ser humano de uma sociedade específica, e a mesma pode variar de cultura para cultura, e de época para época, então, também aqui, concluímos ser antiético impor a própria ética para sociedades com outra cultura.

MORAL

A moral é a “ciência” que ensina as regras a seguir para praticar o bem e evitar o mau; conjunto das faculdades morais; é o relativo aos costumes; é o que tem bons costumes; intelectual; espiritual[2]. A moral é uma determinada consciência tanto individual quanto coletiva dentro de determinada sociedade.
Enquanto a ética é a reflexão, conclusão e legalização sobre os procedimentos mais adequados dentro de uma sociedade, a moral é o “status” e a prática que a própria prática de certos atos terá, depois de já terem sido refletidos. Ou seja, dependendo da ética com que foram praticados, moralmente falando, os atos terão o status de morais (positivos), imorais (negativos) ou amorais (neutros). Se estes atos forem considerados morais, eles conferirão ao praticante apreço e consideração, pois se entende que conservam o respeito mútuo e as regras do viver apropriado, antes definido pela ética.
Antes da prática deve haver a reflexão, antes da moral deve haver a ética, pois se é a ética que confere preceitos e princípios, então é a moral confere o status de dignidade e respeito aos procedimentos adequados, por isso estes são considerados morais.
Se o que é considerado moral é louvado, então o seu oposto, o imoral é considerado indecente, torpe, pervertido, desonesto, depravado e, obviamente, antiético. A atitude que não é considerada moral é vista como um desvio de conduta e, assim, todo desvio deve ser corrigido, mas dependendo da gravidade de seus agravantes a atitude imoral receberá a devida punição. Ainda que a moral deva ser algo praticado voluntariamente, em virtude das penalidades – objetivas ou subjetivas – que acarretam o seu descumprimento, ela gera, determina e motiva a instituição e a prática do que são ou serão coletivamente as boas relações sociais.

RELIGIÃO
   
Religião[3] é, também, o culto prestado a Deus; doutrina religiosa; crença; fé; dever sagrado; crença viva.
Percebe-se em todos os grupos sociais – desde a antiguidade e, talvez, quase todos os de agora – a presença da religião (tanto como relegere, religio, ou religare, nas palavras de Lactâncio, Cícero ou mesmo Agostinho) como formatadora e normatizadora de uma cultura ou subculturas independentes. A religião faz com que haja, através de trocas simbólicas (no dizer de Pierre Bourdier), uma interatividade e interação capaz de tornar outras subculturas dependentes dela. Assim, percebemos também que toda religião e/ou sistema religioso, cumprindo a função pela qual foi intencionada dentro de sua sociedade, é verdadeira, pois programa culturalmente e socialmente o homem dentro de uma realidade simbólica e própria.
O fato religioso, segundo o sociólogo B. Wilson, é entendido como um “produto social” ou como fruto de uma criação coletiva, dotado de uma especial estrutura simbólica, pelo papel que exerce no interior dos mecanismos sociais. O significado social da religião deve ser buscado na sua capacidade de oferecer categorias e símbolos, que ao mesmo tempo facilitam a compreensão, por parte do homem, da sua situação e lhe dão a possibilidade de avaliá-la e enfrentá-la emotivamente e espiritualmente.
Para Augusto Comte, analisando a religião, a passagem da fase fetichista para a politeísta e daí para a monoteísta, era um progressivo amadurecimento da humanidade para formas cada vez mais complexas de convivência, implicando uma racionalização das próprias crenças religiosas. A Religião estabelece a consolidação e a estabilização da relação homem-Deus-sociedade. A Religião tem, pois, uma função relativa á estabilização do sistema social, porquanto ela coordena cada uma das partes deste, e, ao mesmo tempo, consolida as relações interindividuais, e as atitudes individuais.
Segundo Emile Durkheim, a religião é uma representação simbólica da consciência coletiva que toma conta do indivíduo, suscitando nele um sentimento de submissão que ele expressa através da oração e do rito. O culto não é simplesmente um sistema de sinais com o qual a fé se traduz para fora; é a coleção dos meios com que ela se cria e se recria periodicamente. Assim sendo, percebemos o papel fundamental que a religião tem no seio dos mecanismos sociais, enquanto regula-os, estabelecendo a escala dos significados no conjunto global das formas de onde toda cultura tira a própria especificidade.

CONCLUSÃO

Portanto, desde o início, a religião funciona como a grande criadora, formatadora e catalisadora dos recursos culturais que formarão a ética e a moral dentro das sociedades. A religião, todavia, possui também a capacidade de gerar e manter uma univocidade, bem como, uma metarracionalidade em torno de seus próprios conceitos éticos e morais dentro de uma ou várias sociedades diferentes, pois ela os formata ideologicamente.
É justamente em um mundo globalizado que descobrimos nossas diferenças, e, ás vezes, tão radicais. E por mais que convivendo juntos venhamos nos moldar uns aos outros, pois, afinal, o “cada-um” de cada indivíduo é formado por outros “cada-uns”, ainda sim, como surgem acepções. A religião – de relegere, ou seja, “reler ou fazer uma releitura”; ou mesmo de religare, ou seja, de “religar o que foi desligado”, juntamente com a ética e a moral, têm a capacidade de amenizar as diferenças entre os indivíduos, propondo constantemente a valorização do convívio saudável com o próximo – nada mais ético, moral e religioso que isto.
Que cada um de nós seja feliz em nossas interações sociais.


Bibliografia Recomendada:
BÍBLIA SAGRADA CRISTÃ – ARA.
GEISLER, Norman L. Ética Cristã: Alternativas e Questões Contemporâneas. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006.
JOHNSON, Philipp E. As perguntas Certas. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
TORRINHA, Francisco; Novo Dicionário da Língua portuguesa. Porto: Editora Domingos Barreira, 1942.




[1] Torrinha, Francisco; Novo Dicionário da Língua portuguesa – Editora Domingos Barreira; Porto – 1942, pág. 527.
[2] Idem, pág. 823.
[3] TORRINHA, Francisco. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Porto: Editora Domingos Barreira, 1942, pág. 1019.