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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Três Poemas de J. T. Parreira: Três Poemas de J. T. Parreira / DESERTO DO SINAI / JONAS

Arte: Xavier
Três Poemas de J. T. Parreira

O GUARDADOR DOS REBANHOS

Sentado numa pedra à beira do Hélicon
conta as cabeças e vê as suas musas
a comerem erva, depois
conduz o lume dos olhos do rebanho
à frescura das águas tranquilas

O seu rebanho faz um arco
de brancura sobre a erva

O guardador de rebanhos rasga
os olhos pelos quatro pontos cardeais
até pelos espinhos, quando uma ovelha
perde o rumo à sua voz.

30/11/2013
 

DESERTO DO SINAI

(Inédito)


Não havia livros para ler
No lugar onde a vastidão dos olhos dos hebreus
Se desterravam ao deserto


O único livro era pedra, a Torá
Estava na pedra
Sabemos que os alísios espalham
E o siroco deixa nas almas
o cheiro do deserto, os ventos são volúveis e modificam as formas.

02/12/2013


JONAS

Eu não sou ninguém. Deixem-me dormir!
(do poema Talvez me chame Jonas)
León Filipe

Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela
dizia Deus, enquanto  em Jope os remadores exercitavam
os músculos para o remo
a longa viagem para Társis através dos altos
castelos do mar, deixem que os conquiste
através do sono, deixai-me dormir
homens do mar, deixai-me rasgar o asfalto
das águas nos meus sonhos, aqui
no recanto mais escuro do navio
Mas é no mar que se faz a tempestade
O meu corpo por um barco e sua carga
e os homens, com os olhos sem outra chave
senão o medo para abrir a alma
e foi tudo
até que o grande peixe me fechou
na sua caverna,  nas raízes do mundo
Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela
disse de novo Deus, sentado à minha espera
abrindo os ferrolhos das trevas
e da ignorância das águas.

10/11/2013