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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

SERVO ARBÍTRIO e INTERNOMIA com DEUS: a pessoalidade humana e suas reações ás ações de DEUS - por Marcelo Gesta (20/02/2014)


SERVO ARBÍTRIO e INTERNOMIA com DEUS: a pessoalidade humana e suas reações ás ações de DEUS
Por Marcelo Gesta (20/02/2014)

Objetivo e objeto deste artigo:

Sendo DEUS O Criador de todas as coisas e/ou seres animados e inanimados, e sendo DEUS o agente e dirigente de todas as reações da criação, as quais estão sob seu total domínio, como poderia, então, os seres possuidores de consciência própria, interagirem com DEUS ao mesmo tempo exercendo sua arbitrariedade e/ou pessoalidade? E se assim interagem as criaturas humanas com algum tipo de arbitrariedade, onde é que fica a soberania de DEUS na administração independente das reações que a criação tem diante de Sua Vontade Soberana? Este é o objetivo deste artigo, examinar o seguinte objeto: como interage a Soberania de DEUS e a servo-arbitrariedade do ser humano em sua pessoalidade.

INTRODUÇÃO:

DEUS criou leis (físicas e químicas, por exemplo) e aplica-as sobre a criação que, sob Seu domínio, conduzem as reações e os fenômenos do Universo, e os mesmos sempre se repetirão desde que se tenham as mesmas condições determinadas e os mesmos elementos interagindo de igual modo, portanto, diante dos mesmos processos e componentes tem-se sob os mesmos artifícios – sempre – os mesmos resultados. Todavia, em toda a criação há uma classe de seres que não reagem consecutivamente da mesma forma perante os mesmos processos, ou seja, as mesmas podem refletir resultados diversos diante dos mesmos estímulos vindos do próprio DEUS. Essas criaturas peculiares são os seres humanos, que criados a imagem e semelhança de DEUS, foram agraciados com a serva-arbitrariedade, ou seja, uma relativa autonomia – assistida por DEUS – na administração de partes da criação. A Bíblia diz:

E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou. E Deus os abençoou e Deus lhes disse: Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. Gênesis 1:26-28 – ARC.

Como percebemos cada um tem o seu “cada-um”, por sua vez formado por vários outros “cada-uns”, e este é: ímpar, único, diferente de qualquer outro “cada-um”, de qualquer outro indivíduo que tenha passado, esteja passando ou passará pela face da terra. Pois todos nós seres humanos, ou seres que possuem pessoalidade, somos únicos juntamente com os anjos.
Entendemos também, que todo ser espiritual ou humano, que apreende sua existência e a si mesmo, não como algo, mas como alguém, singular em relação aos demais objetos e seres do universo, são pessoais. Ser pessoal é reconhecer a si mesmo, independente do próprio corpo ou dos objetos que interagem consigo. Assim, criado a imagem e semelhança de DEUS, o ser humano tem como sua essência a própria consciência de si mesmo, consciência própria ou racionalidade essa incentivada pelo próprio DEUS. A Bíblia diz, por exemplo:

Vinde, pois, e arrazoemos[1], diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã. Se quiserdes e me ouvirdes, comereis o melhor desta terra. Mas, se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados à espada; porque a boca do Senhor o disse. Isaías 1:18-20 – ARA.

O Senhor Deus diz: Venham cá, vamos discutir este assunto. Os seus pecados os deixaram manchados de vermelho, manchados de vermelho escuro; mas eu os lavarei, e vocês ficarão brancos como a neve, brancos como a lã. Se forem humildes e me obedecerem, vocês comerão das coisas boas que a terra produz. Mas, se forem rebeldes e desobedientes, serão mortos na guerra. Eu, o Senhor, falei. Isaías 1:18-20 – NTLH.

DEUS INTERAGE com o Ser Humano

Neste singular diálogo sagrado, DEUS não está falando consigo mesmo através de um “fantoche” que seria o ser humano, antes, porém, DEUS interage com o ser humano (um indivíduo), já sabendo de suas reações a esta conversa, embora, todavia, é o ser humano que precisa interagir com os estímulos de DEUS, para que com sua própria consciência e servo-arbitrariedade, num processo dialético, venha a conhecer sua “cômoda vontade” e os resultados da mesma. A Bíblia diz:

1Senhor, tu me sondaste e me conheces. 2Tu conheces o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. 3Cercas o meu andar e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. 4Sem que haja uma palavra na minha língua, eis que, ó Senhor, tudo conheces. 5Tu me cercaste em volta e puseste sobre mim a tua mão. 6Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta, que não a posso atingir. 7Para onde me irei do teu Espírito ou para onde fugirei da tua face? 8Se subir ao céu, tu aí estás; se fizer no Seol a minha cama, eis que tu ali estás também; 9se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, 10até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá. 11Se disser: decerto que as trevas me encobrirão; então, a noite será luz à roda de mim. 12Nem ainda as trevas me escondem de ti; mas a noite resplandece como o dia; as trevas e a luz são para ti a mesma coisa. 13Pois possuíste o meu interior; entreteceste-me no ventre de minha mãe. 14Eu te louvarei, porque de um modo terrível e tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. 15Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. 16Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe, e no teu livro todas estas coisas foram escritas, as quais iam sendo dia a dia formadas, quando nem ainda uma delas havia. 17E quão preciosos são para mim, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grande é a soma deles! 18Se os contasse, seriam em maior número do que a areia; quando acordo, ainda estou contigo. 23Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. 24E vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno. Salmos 139 – ARC.

INTERNOMIA

Internomia: Do latim inter-, do adv. e prep. inter, 'entre, no meio de'[2]; e do grego nomia: lei, princípio. Assim sendo lei e/ou princípio próprio, ou seja: fenômeno observado entre seres diferentes que, com seus princípios próprios e individuais, interatuam simultaneamente.
 
Seja qual for a reação humana diante da vontade de DEUS, DEUS já sabe qual será a atitude humana, e já tem um desígnio preparado para, seja qual for, tal reação. E esta reação em si mesma, porém de jeito algum é ou será uma ação que provocará uma reação em DEUS. Pois DEUS é que é o administrador da criação. DEUS é o agente, a criação é o reagente. DEUS não improvisa. Por exemplo:
Uma vez que esperar-se algo acontecer ou não é estar submetido as condições de tempo e ambiente, e sabendo-se que DEUS é eterno e onipresente – portanto transcende a temporalidade e o espaço – então DEUS não precisa que algo aconteça ou não para saber posteriormente seus resultados, pois sempre conhece simultaneamente tudo, e desta forma não reage, mas interage, quando chega aos derivados de suas ações, pois já conhece os resultados das mesmas. Por exemplo: se um ser humano joga uma bola contra uma superfície qualquer, ele não sabe exatamente com que intensidade esta mesma bola retornará á ele, ou mesmo que direção poderá tomar a mesma, ou sequer se a bola atravessará tal superfície ou não, pois ele não tem total domínio sobre tal fenômeno. E assim, ele terá que improvisar em suas reações, diante das tendências diferentes que tal bola ou bolas poderão tomar. DEUS, por sua vez, tem domínio total sobre toda a criação, e se a mesma bola fosse lançada por ELE, o mesmo saberia simultaneamente todas as reações, pois qualquer bola (da mesma espécie e nas mesmas circunstâncias) que seja lançada por DEUS, sob as mesmas condições, ainda que reajam de formas diferentes, encontrará em DEUS a ciência de qualquer variante, pois objetos inanimados se reagirem diversamente, por alguma variante de efeitos físicos, jamais serão por vontade própria. Entretanto, o mesmo não acontece com os seres humanos, que diferente de seres inanimados, conscientemente e intencionalmente podem reagir de forma diferente sob os mesmos processos enviados por DEUS, e não obstante a isso, DEUS em Sua onisciência sabe de todas elas. Isto é o que chamamos internomia entre Criador e suas criaturas.
Então, a questão não é se os seres humanos reagem ou não de forma diferente sob os mesmos estímulos gerados por DEUS, mas sim, que independente das reações plurais que seres humanos possam ter, DEUS onisciente que é, não improvisa atitudes Suas diante destas reações diversas, pois sabe simultaneamente todas elas. Aqui, percebemos o ponto de confluência. O ser humano, por um lado, em si mesmo não tem autonomia (do grego autos = próprio, nomos = lei, ou seja leis próprias), por outro lado, possui sua pessoalidade e individualidade, por outro lado ainda, DEUS, sim, tem autonomia, entretanto, DEUS e ser humano(conscientemente)  interagem simultaneamente em internomia.

DEUS é o Ser Supremo, e o ser supremo. DEUS é agente, o ser humano é reagente, a ação é de DEUS a reação é do ser humano. Ou seja, DEUS, O Criador, é o autor das ações e dos estímulos os quais impulsionarão as plurais reações em sua criação. DEUS age criando estímulos, e rege (administra) tais estímulos e reações. DEUS age e rege as reações, porem, não reage, mas interage. O ser humano, por sua vez, interage e reage aos estímulos de DEUS. Daí, a tentativa de submeter O Criador á criatura é um absurdo, pois somente o posterior provém do anterior e nunca o contrário.
Assim, DEUS – O anterior a qualquer outra coisa ou ser que exista – conduz o ser humano ‘á’ (para um determinado fim, com um objetivo), porém, nunca age ou escolhe pelo mesmo, pois isso anularia a pessoalidade do ser humano. Aqui há um Mistério: onde, como, por quanto tempo, e de que forma ambos, criador e Criatura, interagem neste processo? Definir isso racionalmente seria como, por exemplo, definir o eterno, a onisciência, o sagrado em sua plenitude, seria como definir o inobjetável.

INTERNOMIA e CULPABILIDADE PESSOAL do ser Humano

A culpabilidade pessoal se manifesta na reação de um indivíduo que está consciente dos estímulos que o levam a um determinado ponto, em que terá que escolher uma determinada atitude, entre diversos atos que possa exercer, e pratica um ato, sem coerção, baseado na sua pessoalidade e individualidade, conscientemente. Em outras palavras, quando o indivíduo, diante de um estímulo, reage e pratica aquilo que para ele é mais relevante e tem consciência do está fazendo, e escolhe dentre outras uma atitude específica sem que esteja sofrendo coação, aí se dá a culpabilidade pessoal. A Bíblia diz:

Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Romanos 1:20,21 – ARA.

Desde que Deus criou o mundo, as suas qualidades invisíveis, isto é, o seu poder eterno e a sua natureza divina, têm sido vistas claramente. Os seres humanos podem ver tudo isso nas coisas que Deus tem feito e, portanto, eles não têm desculpa nenhuma. Eles sabem quem Deus é, mas não lhe dão a glória que ele merece e não lhe são agradecidos. Pelo contrário, os seus pensamentos se tornaram tolos, e a sua mente vazia está coberta de escuridão. Romanos 1:20,21 – NTLH.

Os seres vivos irracionais são dirigidos, ou condicionados, ou coagidos pelas leis da natureza a desempenharem determinadas atitudes, por instinto. Todavia, no caso dos seres humanos, não são as circunstâncias que o levam a fazer e/ou ter determinada escolha, porém, o ser humano, sim, é que tem determinadas escolhas pessoais e individuais, perante estímulos diversos, em função daquilo que é mais proeminente para ele, sempre com uma internomia com DEUS. Dependendo do caráter e daquilo que é mais proeminente e relevante para cada ser humano, cada indivíduo reagirá de forma peculiar diante dos mesmos estímulos. Por exemplo: alguns indivíduos, se acharem uma mala cheia de dinheiro ficarão com ela; outros olharão para ela, mas não porão suas mãos nela; outros diante da mesma mala tentarão devolvê-la ao seu dono; outros a darão a quem é mais necessitado e, assim, por diante. Nota-se aqui a pessoalidade de cada atitude diante do mesmo estímulo. DEUS já sabe – em Sua presciência – qual será a atitude de cada indivíduo, entretanto, é o dono de sua própria atitude que precisa sabê-la depois de pratica-la, assim, ninguém será inocente ou irresponsabilizado, no dia do juízo final.
Atuar pelo ser humano seria livrá-lo da responsabilidade ou culpabilidade que ele tem por suas serva-arbitrariedades pessoais, pois se assim DEUS agisse, nem mesmo o ser humano teria culpa no Éden, pois DEUS é que teria operado por ele lá também, privando-o de uma servo-arbitrariedade individual ou tentando-o, e como sabemos DEUS a ninguém tenta.

Quando alguém for tentado, não diga: “Esta tentação vem de Deus.” Pois Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo não tenta ninguém. Mas as pessoas são tentadas quando são atraídas e enganadas pelos seus próprios maus desejos. Então esses desejos fazem com que o pecado nasça, e o pecado, quando já está maduro, produz a morte. Tiago 1:13-15 – NTLH.

O ser humano no Éden, por exemplo, teve diante de si dois tipos de estímulos: um da parte de DEUS e outro da parte do diabo, no entanto, ele escolheu não pelo que seria perfeito e indicado por DEUS, mas, sim, pelo duvidoso indicado pelo diabo através da serpente. A Bíblia diz:

A cobra era o animal mais esperto que o Senhor Deus havia feito. Ela perguntou à mulher: – É verdade que Deus mandou que vocês não comessem as frutas de nenhuma árvore do jardim? A mulher respondeu: – Podemos comer as frutas de qualquer árvore, menos a fruta da árvore que fica no meio do jardim. Deus nos disse que não devemos comer dessa fruta, nem tocar nela. Se fizermos isso, morreremos. Mas a cobra afirmou: – Vocês não morrerão coisa nenhuma! Deus disse isso porque sabe que, quando vocês comerem a fruta dessa árvore, os seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecendo o bem e o mal. A mulher viu que a árvore era bonita e que as suas frutas eram boas de se comer. E ela pensou como seria bom ter entendimento. Aí apanhou uma fruta e comeu; e deu ao seu marido, e ele também comeu. Gênesis 3:1-6 – NTLH.

DEUS onisciente de tudo já sabe a reação do ser humano, porém, para efeito de julgamento sobre as responsabilidades humanas, o ser humano precisa saber adequadamente qual será sua própria reação. E este processo é mais um dos atos de misericórdia e graça de DEUS, pois aí está dando oportunidade para que o ser humano se arrependa ou não e, assim, exerça sua serva arbitrariedade. Além do mais, ninguém pode ser julgado por uma reação que não lhe pertença – isso seria injusto – por isso, no dia do Juízo ninguém será inocente de suas decisões, atitudes e reincidências. A Bíblia diz:

A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a maldade do pai, nem o pai levará a maldade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a impiedade do ímpio cairá sobre ele. Ezequiel 18:20 – ARC.

CONCLUSÃO

"É perigoso alguém estimar sua própria posição no Reino de Deus. É perigoso o indivíduo imaginar-se como personagem da história da salvação e comparar-se com os outros! É perigoso nós sabermos bem demais o que e quem se é. É melhor que deixemos a tarefa de nos conhecer, inteiramente a Deus, pois é no seu conhecimento que está a decisão sobre se aquilo é verdadeiro ou se é mentira e mera presunção". Karl Barth.[3]

O ser humano – em relação a DEUS – por exemplo, é reagente de uma ação anterior a sua, nisto vemos a impossibilidade de livre arbítrio no ser humano, pois o mesmo nunca é agente (matriz) de uma ação que levará a DEUS a ter uma reação (isto seria magia) em relação a ação humana, pois, o ser humano é o posterior, DEUS é o anterior, e o anterior é que constitui a matriz dos estímulos, daí a servo-arbitrariedade humana estar sujeita aos desígnios de DEUS. Todavia, a Onipotência, a presciência e soberania de DEUS e a pessoalidade e servo-arbitrariedade do ser humano não se excluem, porém, interagem em uma internomia. DEUS, com sua ação, envia o impulso ao ser humano, e este, em sua individualidade, reage positivamente ou negativamente a esta internomia, por isso o ser humano será julgado em função de sua culpabilidade ou inocência em relação a suas reações diante dos estímulos que tem diante de si. E como isto se dá é Mistério de DEUS.

Reflexão sujeita a atualizações.
Att
Marcelo Gesta.




[1] DEUS chama para trocar razões, ou seja, conversar sobre um assunto.
[3] BARTH, Karl. Carta aos Romanos. Tradução de Lindolfo Anders – 5ª edição – São Paulo: Fonte Editorial, 2009, pág. 631.